Pai Mãe Irmã Irmão

Saí da sessão já falando pro Erê que esse é o meu tipo de filme: uma tríade de pequenas histórias em que suas motivações e conclusões são tão ambíguas que elas podem não existir. Nada parece acontecer, mas Jarmusch observa tudo: os silêncios, os pequenos gestos, a forma como os personagens se movimentam pela cena. Tudo o que é dito, tudo o que não é dito e tudo o que fica pelo caminho.

Jarmusch usa muito bem a estrutura de três histórias que não se conectam, mas rimam. Essas rimas mais pontuam outros detalhes que parecem aproximar essas histórias: a distância que existe entre esses pais e filhos que parece intransponível, e um silêncio que é cômico, até ficar melancólico. E embora o filme todo seja engraçado, essa melancolia vai tomando conta dos personagens conforme as histórias progridem e a gente vê a distância entre essas pessoas, que se amam, só aumentar.

A segunda história, Mãe, é a minha favorita. Ajuda que tem três atrizes fantásticas em um jogo de comportamentos preciso. É um ótimo lembrete da força monumental da Cate Blanchett, que em uma cena de alguns segundos sozinha dentro de um banheiro transmite toda a tristeza de uma vida inteira de sua personagem para o espectador.

A Cronologia da Água

Assisti na Casa de Cultura semana passada, e o filme ficou cozinhando em fogo baixo em mim pela semana seguinte. Kirsten Stewart dirige bem: ela tem uma montagem de impacto que me pareceu muito com o Steve McQueen no início da carreira, e ela bebe muito da textura da memória que Charlotte Wells empregou em Aftersun.

Mas o roteiro de A Cronologia da Água não ajuda. Um dos grandes desafios de filmes “sobre trauma” é balancear a ideia de que o trauma não define a pessoa que sobreviveu ele, ao mesmo tempo que ele é uma prisão que distorce o horizonte e o destino dessa pessoa enquanto ela navega por esse trauma. Aqui, a protagonista é completamente definida pelo abuso que passou na infância, e a estrutura do filme não ajuda a amenizar essa impressão. Pra um filme de memórias, A Cronologia da Água é completamente linear, então o abuso é concentrado em seus momentos iniciais, na infância da protagonista, e gera uma maré de inseguranças pelo filme todo. Em um filme de memória, porém, as relações que criamos entre as cenas são muito mais de tato: um detalhe, que lembra outro, que lembra ainda mais um. Uma estrutura não linear evitaria essa impressão de que um evento na infância influenciou todo o comportamento da personagem, fazendo ele mais assombrar ela do que justificar seu comportamento.

De resto, A Cronologia da Água é muito bem dirigido. A fotografia me lembrou muito Cassavetes — filmando essas atrizes em closes tão íntimos que parece querer mergulhar na pele delas. O filme nunca encontra uma sincronia entre atuação e câmera como Cassavetes conseguia, mas só pelo fato de tentar, e chegar perto, já é crédito pra Stewart. Eu acho que ela vai fazer algum filme incrível no futuro, tem muita migalha boa por aqui.

Eu tô sentado no pátio dos meus pais, numa cadeira de praia. Eu sinto a grama entre os dedos do meu pé. O dia tá quente, mas aqui sempre tem uma brisa.

Tá num daqueles dias raros de silêncio. Embora meus pais morem no interior, sempre tem algo acontecendo ao redor da casa deles. Ou os cachorros estão resolvendo um problema político entre eles e os cachorros do outro lado da cerca; ou tem alguém aproveitando o fim de semana pra cortar a grama; ou é dia de churrasco em um dos vizinhos, e todo o mundo precisa ouvir a música que vai servir como trilha-sonora do almoço em família.

Hoje é um silêncio diferente. A casa tá quieta. Eu e meus pais voltamos há algumas horas do funeral do meu tio. Eles dormem, cada um em um canto da casa. Meus pais não gostam de mostrar que estão cansados um para o outro, então eles cochilam quase que escondidos um do outro.

Eu decidi vir pra rua. Pisar um pouco na grama. Eu gosto de sentar aqui nesse canto do pátio. É ao lado da árvore sob a qual a Vivi foi enterrada. Hoje é só mais um canto — a grama já cresceu, a árvore tá linda.

Ouvi minha mãe acordar agora. Eu sei que isso aconteceu porque a Zinha, uma das cadelas aqui da casa deles, também acordou. A Zinha acompanha minha mãe pela casa toda. A gente reclama desses comportamentos deles até o momento em que eles não podem mais nos seguir. Daí a gente sente falta.

A Mel veio me fazer companhia. Vou ter que parar de escrever, porque a Mel exige colo e ela não liga se o computador vai atrapalhar ela. Melhor botar ele pra lá.

Era pra chover hoje. Ainda bem que não choveu, tá muito bom de colocar os dedos do pé na grama e sentir ela abraçar meus pés.

↪ arthr.dev/

Eu estava com o domínio arthr.dev estacionado há algum tempo, usando ele principalmente pra hospedar prévias dos temas que eu faço em subdomínios, como minduim.arthr.dev, linus.arthr.dev, etc. Decidi fazer dele meu “portfólio” como desenvolvedor — já que o .me tem quase nada sobre minha vida profissional.