Assisti na Casa de Cultura semana passada, e o filme ficou cozinhando em fogo baixo em mim pela semana seguinte. Kirsten Stewart dirige bem: ela tem uma montagem de impacto que me pareceu muito com o Steve McQueen no início da carreira, e ela bebe muito da textura da memória que Charlotte Wells empregou em Aftersun.
Mas o roteiro de A Cronologia da Água não ajuda. Um dos grandes desafios de filmes “sobre trauma” é balancear a ideia de que o trauma não define a pessoa que sobreviveu ele, ao mesmo tempo que ele é uma prisão que distorce o horizonte e o destino dessa pessoa enquanto ela navega por esse trauma. Aqui, a protagonista é completamente definida pelo abuso que passou na infância, e a estrutura do filme não ajuda a amenizar essa impressão. Pra um filme de memórias, A Cronologia da Água é completamente linear, então o abuso é concentrado em seus momentos iniciais, na infância da protagonista, e gera uma maré de inseguranças pelo filme todo. Em um filme de memória, porém, as relações que criamos entre as cenas são muito mais de tato: um detalhe, que lembra outro, que lembra ainda mais um. Uma estrutura não linear evitaria essa impressão de que um evento na infância influenciou todo o comportamento da personagem, fazendo ele mais assombrar ela do que justificar seu comportamento.
De resto, A Cronologia da Água é muito bem dirigido. A fotografia me lembrou muito Cassavetes — filmando essas atrizes em closes tão íntimos que parece querer mergulhar na pele delas. O filme nunca encontra uma sincronia entre atuação e câmera como Cassavetes conseguia, mas só pelo fato de tentar, e chegar perto, já é crédito pra Stewart. Eu acho que ela vai fazer algum filme incrível no futuro, tem muita migalha boa por aqui.