Herança Nuclear

Me lembrou de dois filmes, tão bons quanto.

O primeiro foi Stalker, um outro filme que vê na “Era Atômica” o fim da humanidade. Ou melhor: como a bomba atômica tirou da humanidade a capacidade de sonhar, da possibilidade de um mundo melhor. Em Stalker, os intelectuais são engolidos pela própria desilusão, não conseguindo entender como chegamos a esse ponto de autodestruição. Em Herança Nuclear, o futuro é a primeira coisa que desaparece: os bebês morrem antes, e depois as crianças.

O outro foi Cemitério dos Vagalumes. Ambos são retratos dilacerantes do esfarelamento de quem somos. A mãe enrolando o filho mais jovem num cobertor, e enterrando-o no quintal, é de uma crueza que eu não esperava — como eu não esperava no filme de Takahata, em que um irmão precisa cremar o outro.

O início desse filme é de um assombro. A janela aberta, com a brisa movendo as cortinas. A mesma brisa que alimenta uma manhã normal vai ser a que vai trazer a contaminação à família. Lynne Littman filma que é um colosso: a dinâmica familiar se assenta já no início, e é a base que estrutura todo o filme. Como cada detalhe dessa dinâmica muda conforme a comida vai ficando escassa e as pessoas vão desaparecendo — literal e metaforicamente. A vida (mesmo imperfeita) da família ganha uma preciosidade tão bonita quando a gente acompanha, passo a passo, ela se dissolver. Tá aí um filme que vai me assombrar.

Filmes que me fazem me sentir em casa

Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha.

Muita coisa mudou em pouco tempo por aqui. Eu e meu namorado terminamos depois de quatro anos juntos e, com isso, várias mudanças pequenas aconteceram ao redor dessa mudança grande. A rotina, os trajetos pra casa, as combinações, e até mesmo os sentimentos um pelo outro. A gente não brigou, nem nada, e ainda assim muita coisa foi de um lugar pra outro. Rituais que antes pareciam sagrados simplesmente desapareceram. Soluções pra problemas antigos deixaram de fazer sentido. Problemas que antes eram nossos passaram a ser só meus, ou só dele. Dúvidas não foram respondidas, e mesmo assim deixaram de existir; enquanto certezas que existiam voltaram a sumir. Espaços na minha casa ficaram vazios, e depois eu precisei ocupá-los com minhas próprias coisas.

Casa é uma coisa muito importante pra mim. Pela maior parte da minha infância e juventude, eu não me “sentia em casa” na casa dos meus pais. Eu só fui realmente me sentir em casa quando trouxe um colchão, um abajur e uma geladeira pro apartamento que eu comprei no lugar que eu sempre gostei muito. Daí sim eu comecei a me sentir em casa. Montando, decorando, arrumando ela. Conhecendo sua dinâmica, o movimento de seus corredores. O horário que ela desperta e o horário que ela dorme.

Se sentir em casa é uma experiência extra-humana interessante. Minha casa é uma diagramação da minha própria mente. É a representação de pedra e tijolo e madeira e concreto do meu eu, e dos meus limites. Quando uma mudança abalou minha mente, minha casa parecia ter sentido. Seu silêncio mudou — antes, opressor; agora, acolhedor. Depois de todos esses anos sendo a casa de um casal, ela voltou a ser a minha casa. E eu lembrei de olhar pros vincos na parede que antes eu prestava atenção, pro modo como o sol bate de tarde na parede oposta, iluminando as fotos na parede.

Esses filmes tem uma experiência extra-humana parecida. Alguns retratam rotinas em si, outros retratam suas quebras. Mas são filmes em que pessoas experimentam justamente essa sensação de sua existência exalar o próprio corpo — e a sorte que eles tem, de ter um lugar, ou alguém, pra acolhê-los em um lar, ou um abraço.


  • Daguerreótipos (Agnès Varda, 1976)

    O filme que me fez pensar nessa lista. Agnès Varda filmou Daguerreótipos enquanto cuidava do seu filho recém-nascido, não podendo se afastar muito de casa. O filme se limita ao comprimento do cabo de energia que ela usava para alimentar o equipamento de filmagem, o que consiste na distância da sua quadra. É ali que ela documenta a vida de seus vizinhos comerciantes: o alfaiate, os cabelereiros, o instrutor de condução, os açougueiros, os padeiros; e uma vizinha que olha para a janela da sua loja de botões com uma ânsia de ir embora.

    Eu acho que nenhum outro filme enxerga com tanta delicadeza a dinâmica da rotina de uma vizinhança como Daguerreótipos. Varda observa as rotinas de seus vizinhos, e também toda a humanidade que existe entre eles: os tiques, as memórias, os sonhos, e as coisas que preenchem suas paredes. É um filme que me faz pensar nos meus próprios vizinhos, e como eles não me deixam me sentir sozinho — e como é bom retribuir esse favor.

  • Meu Vizinho Totoro (Hayao Miyazaki, 1988)

    Revi esse filme umas duas ou três vezes com meu sobrinho na semana em que meu relacionamento acabou. Caetano se apaixonou pelos pequenos detalhes que o filme não se preocupa muito em explicar — em especial, os pequenos bichinhos de poeira. Eu me lembro que o que me chamava tanto a atenção quando eu era pequeno era o som que os pés da Satsuki e da Mei fazem no chão da casa assim que elas entram e começam a correr pelos seus cômodos, e como elas descobrem as janelas e os corredores — e o sótão.

    Tem muito conforto pra se encontrar na casa na beira do bosque, mas antes ela precisa de uma faxina e de uma arrumação. Mesmo assim, o conforto maior é nos abraços que os personagens trocam uns com os outros ao redor dessa casa. Seja com o pai, quando ele chega atrasado do trabalho, com o próprio Totoro, que alça voo pela noite, ou entre as próprias irmãs, que se reencontram depois de um dia muito longo.

  • Memórias de Ontem (Isao Takahata, 1991)

    Memórias de Ontem é um filme em que a protagonista só encontra um lar muitos anos depois da infância. Talvez seja (e provavelmente é) projeção minha, mas o incômodo indescritível de Taeko na infância seja, justamente, a sensação de não se sentir em casa na casa em que cresce. É um sentimento involuntário e inexplicável — não existe o parâmetro do que é um lar nessa idade para sabermos que é isso que está errado —, mas quando Taeko vai para o campo, décadas depois, e finalmente entende o que é se sentir em harmonia com as pessoas ao seu redor, e com o espaço que ocupa, que o seu incômodo de antes ganha forma, e vira memória.

    (Eu, também, vou largar tudo um dia e me mudar para uma fazenda japonesa. Lá sim é o meu lar.)

  • Amantes (John Cassavetes, 1984)

    Para não dizer que só tenho exemplos bons nessa lista. Em Amantes tanto a casa, quanto o relacionamento entre os irmãos, é uma prisão que os sufoca e os consome.

    Mesmo assim, é um retrato (dilacerante) do conforto que só duas pessoas que se conhecem intimamente conseguem se dar enquanto são incapazes de sair de suas próprias prisões mentais. Bob e Susan se amam, querem o bem um para o outro e lutam para isso — mas são incapazes de estender essa cortesia para si mesmos. Um retrato do pior tipo de vazio — aquele que sentimos dentro da nossa própria alma.

  • Certas Mulheres (Kelly Reichardt, 2016)

    Três histórias de três mulheres seguindo suas próprias vidas. A rotina que Reichardt filma aqui me conforta — essas mulheres têm vidas pra viver, compromissos a cumprir. E Reichardt enxerga tanta vida nesses breves momentos em que acompanha elas. Na textura do sofá em que Laura cai no sono com seu cachorro; no frio do início da manhã que Gina sente ao sair da barraca; no pequeno aconchego que a rancheira de Lily Gladstone tem ao dirigir noite adentro para o centro da cidade e ver alguém que a fez existir além do próprio corpo.

    Quando eu vi esse filme pela primeira vez, em 2017, eu escrevi:

    Tem esse sentimento estranho, que eu acho que é de quem vive em cidade pequena, de uma hora tu olhar ao teu redor e não conseguir perceber onde acaba tua pele e começa o ar. É o sentimento mais estranho do mundo, mas é ao mesmo tempo acolhedor. É estranho de explicar.

    Isso é se sentir em casa.

  • Onde Vivem os Monstros (Spike Jonze, 2010)

    Dá pra falar sobre a jornada interior que Max está passando nesse filme com seus próprios monstros, tentando criar uma “fortaleza” para viver.

    Mas também dá pra falar da cena final, em que a mãe adormece enquanto vê Max, todo sujo e molhado, comendo ao som do “hmm–hmm–hmm” da Karen O. em Food Is Still Hot. Ela finalmente está se sentindo segura, e bem, em sua própria casa. Ele sorri. Nenhum filme me conforta e me acolhe tanto quanto esse.

  • Lovers Rock (Steve McQueen, 2020)

    Grace foge de casa numa noite para atravessar a cidade e ir em uma festa na casa de Cynthia, que está de aniversário. O que acontece dentro daquela casa, que sua tanto quanto os corpos que dançam dentro dela, é uma das representações mais lindas de comunhão que eu já vi.

    Lovers Rock é um filme impossível. É impossível colocar em um filme sentimentos tão breves, tão específicos, quanto os que McQueen consegue imprimir aqui. Tem paixão, tem carinho, tem angústia e tem libertação. A opressão está, literalmente, do outro lado da porta. Mas a casa de Cynthia, durante uma noite que seja, é um santuário de música, de corpos que se mexem, de gente que quer ser feliz e que quer fazer os outros serem felizes juntos. É a estrutura de um lar.

  • Todos Nós Desconhecidos (Andrew Haigh, 2023)

    Uma das partes mais essenciais, e mais difíceis, desde que comecei a morar na minha casa, foi enfrentar a minha própria solidão. Entrar em paz com ela. Eu sei me sentir sozinho mesmo com pessoas ao meu redor, mas há algo na forma como a casa se silencia no início da noite que, por muito tempo, foi desesperador pra mim. Hoje, eu sinto que estou em harmonia com essa solidão — solitude, até —, mas foi uma viagem difícil.

    Em Todos Nós Desconhecidos, essa viagem é dilacerante. Enfrentar a si mesmo é um dos maiores obstáculos. A existência é, essencialmente, solitária, mas é tão bonito quando ela é pontuada por afeto, por amor. É tão bonito ver um filme que enxerga o espaço delicado e precioso que existe entre suas pessoas e todo o infinito de seus íntimos.

  • Pequena Mamãe (Céline Sciamma, 2021)

    Por um momento, na primeira vez que eu assisti essa fábula belíssima de Céline Sciamma, eu achei que ela ia terminar com a família decidindo ficar na casa da avó, que está sendo esvaziada agora que ela morreu. Isso ia desfazer toda a beleza delicada que o filme construiu até ali.

    Mas Sciamma é uma diretora, e roteirista, no auge de seu talento, e não ia cair na armadilha de tentar fechar uma história assim. A casa vira passado, mas ela foi um presente importante na vida de mãe e filha. Tem algo tão bonito na forma que Sciamma filma a casa, e como ela vai deixando de ser uma — as paredes vão se esvaziando, os barulhos vão mudando. Ela vai ficando quieta, como se despedisse da família que ela ajudou a construir.

Daguerreótipos

É a segunda vez que revejo Daguerreótipos no cinema. A primeira vez foi na Cinemateca Capitólio. Dessa, foi na Cinemateca Paulo Amorim — meu cinema favorito da cidade, que fica pertinho aqui de casa. A sessão não tinha tanta gente, mas todo mundo parecia apaixonado pelos sujeitos que Varda observava.

Eu experimentei ir pra Cinemateca sem o celular, porque eu já sabia a experiência que o filme ia provocar em mim, e foi certeiro. Foi muito bom poder ir e voltar da CCMQ tendo que olhar pros arredores, considerar as pessoas que estão junto, sem poder recorrer aos problemas de longe pra me distrair. Eu percebi o quanto eu me sinto em casa onde eu moro hoje — como me sinto protegido por acenar pro Itamar, o dono do bar ao lado, toda noite ao voltar pra casa. Como eu me sinto próximo das pessoas que me ajudam a viver minha rotina, como as mulheres da lavanderia; a bilheteira da CCMQ; o dono do café que fica do lado da entrada da sala; a dona da vendinha que tem aqui perto de casa.

Daguerreótipos me lembra que todo o mundo é uma pessoa inteira, com seus próprios sonhos, suas próprias rotinas e suas próprias memórias. Ele me lembra também que, quando olhamos ao redor e vemos as rotinas das quais a gente também faz parte, o mundo fica mais interessante, fica mais bonito, e fica menos difícil de viver, e de conviver.

Logo mais eu faço todo o trajeto de novo — pego a Duque, desço a General Câmara e sigo pela Andradas. Vou rever os rostos dos meus vizinhos e as fachadas das suas casas e dos seus negócios. Vou dar um alô pro Itamar enquanto abro o portão de casa, e ele vai saber que eu cheguei bem.

Algumas coisas novas no site essa semana

Depois das webmentions, essa semana eu me dediquei a adicionar links pelo site.

No menu principal, um novo item: A Trilha, que é uma instância do Wander Console, que é uma rede interligada de links recomendados de várias pessoas em seus próprios sites. Por exemplo, eu recomendo alguns links, como o blog O Sol na Cabeça, e recomendo outras instâncias do Wander, como o de Susan Pal, que criou o projeto. Na Trilha, você vai ver os sites que eu e Susan recomendamos.

No rodapé, links para sites aleatórios de um grupo de pessoas que gostam muito do CSS, o CSS JOY webring. “Webring” é um nome da IndieWeb para uma coleção de sites em uma estrutura circular — você pode navegar por todos os links da coleção clicando no “próximo” em cada site. Eventualmente, você vai cair aqui de novo.

Acho que isso ajuda quem tropeçar no meu site a tropeçar em outros sites bacanas, de gente que tá fazendo a internet à mão. É pra parar de disseminar essa teoria da internet morta. Tem muita vida por trás de vários sites pessoais por aí.

(Além desses, eu adicionei links pras minhas redes sociais no rodapé.)

The HTML Review, volume 5

Saiu o novo volume da The HTML Review, uma revista sobre a internet feita à mão. Como todos os anos, ela é cheia de pequenos experimentos.

Toda a HTML Review é especial. Eu recomendo começar sempre da primeira página e ir seguindo, como se folheasse uma revista mesmo. Eu ainda tô adentrando essa edição, mas duas seções me cativaram muito:

  • Tell umma I’m walking to Baekdusan, um ensaio de Anne Lee Steele sobre a relação entre a sua “psicogeografia” e o próprio computador.
  • from mine to yours, um “monólogo interno” de Quennie Wu em uma caminhada. Acho que nada, em toda a minha vida, capturou tão bem a sensação que eu tenho de caminhar — um hábito que eu não perco por nada.

Bom sábado!