Quando eu lembro da Delinha, ou da Vivi, ou do Pepi, ou do Tigre, eu nunca lembro dos momentos banais do nosso dia-a-dia juntos, de como foi bom crescer e viver ao lado deles. Daquele ócio, daquela banalidade doce que a segurança da companhia deles trazia.

Eu lembro, sempre, dos momentos ao redor de suas mortes. Eu lembro de encontrar o Tigre no meio dos escombros, eu lembro do Achei não conseguindo mais levantar, ou de minha mãe chorando porque viu o Pepi atropelado na estrada. Eu lembro da respiração ofegante da Vivi. Eu lembro do olhar assustado da Delinha.

Grande parte das primeiras duas décadas da minha vida foi ao redor deles e, mesmo assim, eu não consigo lembrar instintivamente dos bons momentos que tivemos juntos. Eu preciso querer pensar na vez que levei a Vivi pra praia, e a vi correndo pela areia em direção ao mar sozinha, contente. Eu preciso querer lembrar de ficar deitado no chão fresco da garagem com o Pepi num dia de calor. Recentemente, eu preciso querer lembrar de qualquer outro detalhe da Delinha que não o peso dos seus ossos quando coloquei ela na maca do doutor na manhã que ela morreu, nem do peso do saco em que ela estava quando a levei para o carro.

Essa última semana foi particularmente difícil pra mim por causa disso. Eu pensei na Delinha (e, como sempre nos últimos anos, penso na Vivi todos os dias), mas toda a vez que eu penso nela, eu penso nesses últimos momentos. Eu preciso me esforçar para lembrar do resto. Se eu pensei na Delinha o tempo todo, eu pensei em sua morte o tempo todo também.

Eu sei que isso é parte do luto. Eu já escrevi sobre isso quando a Vivi morreu. O problema, pelo menos por conta de como foi com a Vivi, é que isso não passa. Eu penso na Vivi quase que diariamente desde que ela morreu, mas sempre que eu começo a pensar nela, a primeira imagem que me vem foi eu sentado ao seu corpo, fazendo um carinho no seu pelo mesmo depois de morta, porque queria lembrar da textura de sua pelagem nos meus dedos. Eu já esqueci da textura, mas eu lembro do momento. E o momento é triste. Só depois disso, que eu preciso fazer o exercício de pensar em algum outro momento melhor para lembrar, ou para considerar. É sempre algo que eu preciso fazer ativamente. Lembrar da Vivi é lembrar da sua morte. Querer lembrar da Vivi é quando eu procuro uma boa lembrança na minha cabeça. Delinha viveu dezoito anos comigo, e o único momento trágico que eu tive ao lado dela é justamente o que não sai da minha cabeça quando lembro dela.