Meu livro favorito é “A Visita Cruel do Tempo”. Em um dos capítulos acompanhamos um homem, Ted Hollander, procurando a sobrinha, Sasha. Sasha é o mais próximo que o livro tem de uma protagonista. Cada capítulo do livro gira em torno de uma pessoa que pode ou não ter conhecido ela. As vezes, se passa muito tempo antes dela nascer, com pessoas que vão conhece-la muito tempo depois.

Nesse capítulo, Ted encontra Sasha, que fugiu da casa da mãe há alguns anos. Ele encontra ela em Nápoles. Quando eles se encontram, ela o leva pro quarto dela, e ele pergunta o que ela tem para querer viver num lugar tão ruim.

A Sasha espera o momento exato em que o sol passa pelo pequeno buraco na parede que ela chama de janela, em que ele preenche exatamente aquele espacinho e ilumina seu rosto. “Ele é meu”, ela fala pro tio, que observa como, realmente, quando o sol entra pela fresta, ele parece ser todo dela.

Muitos anos depois de ler esse livro eu me peguei tomando meu último café do dia na minha sacada. É um ritualzinho que eu adoro fazer, mas que foi se fazendo tão lentamente que eu nem percebi que era um. Quando eu percebi que eu gosto de ficar na sacada nos últimos momentos de sol, eu percebi que minha casa tinha virado meu lar, e eu lembrei daquele trecho do livro, que finalmente fez sentido. Aquele pedacinho de céu, todo da Sasha. Esse é o meu, esse é o da minha casa.

Ótima a comparação que Jennifer Egan faz da internet com o conto de João e Maria: a casa de doces é “de graça”, mas quanto mais você come, mais chances você tem de ser devorado.