Eu atrasei total esse post, e peço desculpas. Os últimos dias no trabalho — meus últimos dias na empresa que eu trabalhei pelos últimos anos — foram intensos.

Essa primeira etapa do Ghibli Fest acabou com dois filmes charmosos. Sussurros do Coração, que passou na terça-feira, é uma pérola. Um romance que tem um cenário tão marcante que eu nem sabia que ficava na memória com tanta intensidade: a loja de antiguidades que a protagonista Shizuku conhece depois de seguir um gato. Eu amo uma história de amor impossível, e a história de amor que _Sussurros do Coração_revela (não a dos protagonistas, mas a que existe nessa loja de antiguidades) é bem do tipinho que eu gosto. Toda a trama da frustração que é escrever também é muito a minha zona — e de uma especificidade deliciosa. O jeito como Shizuku parece aliviada a finalmente tirar essa história de dentro de si é linda.

Ponyo “anda” por cima dos espíritos do mar

Já Ponyo, que parece ser o menor filme do Miyazaki em escopo, também é uma pérola. Também é uma história de amor, bem A Pequena Sereia das ideias, mas é contada com tanto vigor e com tanta sinceridade que desarma qualquer um. Fora que a água é o cenário pra Miyazaki — a fluidez do movimento de seus filmes parece ainda maior quando tem líquidos envolvidos. É um bom filme pra acabar essa primeira parte da mostra, pensando em retrospecto. Não é A Viagem de Chihiro ou Totoro, mas deixa um gostinho de quero mais na boca, e uma satisfação no final da sessão. Bem aquilo que a gente quer.

“Uma Batalha Após A Outra”, de Paul Thomas Anderson

Três dias depois e eu ainda tô vidrado, pensando em Uma Batalha Após A Outra. Eu nem sei por onde começar a falar desse filme.

Paul Thomas Anderson cita Robert Altman há muito tempo — desde Boogie Nights, talvez? — e usa os ensinamentos de seu professor na máxima potência pra dirigir a ação de Uma Batalha Após A Outra. Ele mapeia cada personagem participando de uma sequência que, por mais caótica que ela seja, você sabe para onde cada um está rumando, qual o objetivo de cada um. Isso torna a ação mais grandiosa, e nos faz ver não só cada engrenagem funcionando, como a máquina inteira andando também.

É realmente incrível. Impressionante como até personagens como Junglepussy, que tem uns cinco minutos em tela, são tão inspiradores e marcantes que sua ausência é sentida. Uma Batalha Após A Outra não esconde a tristeza do sacrifício em uma revolução, das baixas que o French 75 teve. A revolução é feita de pessoas, cada uma delas: todo o prólogo do filme, que passa voando, é justamente uma demarcação de quem foram essas pessoas, pelo que elas tavam lutando, e como o mundo respondia a elas. Todo o restante do filme é uma movimentação furiosa desses pontos.

Isso libera muito do filme para Paul Thomas Anderson modular a tensão, e nossa como ele consegue. Ele tira tanto a comédia quanto o suspense em sequências em que senhas precisam ser decodificadas, perseguições precisam ser interrompidas porque o sensei tá tomando uma cervejinha. O filme é tão furioso, mas com um coração tão grande, que essas pausas não parecem só sacadas cômicas, mas momentos em que essas pessoas mostram quem elas são, e o que as move. É uma continuação menos organizada, mas mais natural, dos revolucionários lá do início do filme, que ainda reverberam muito tempo depois.

Essa modulação é perfeita, vale dizer. PTA sempre soube lidar com vários arcos narrativos ao mesmo tempo, mas eu acho que ele nunca lidou tão bem quanto aqui, em que de um lado há a revolução acontecendo, e de outro a relação de um pai e uma filha, e os conflitos de como passar seus ideais para a geração seguinte. Parece ser um filme extremamente pessoal de Anderson, de um pai duvidar de si mesmo, de perceber que sua geração falhou, mas ter esperança o suficiente de que a geração seguinte pode conseguir — e eles precisam das ferramentas para isso. Me lembrou muito de O Menino e a Garça nesse sentido, em que um mestre pede para que seu neto escolha entre manter um mundo imperfeito ou criar um mundo novo. Não é a toa que Chase Infiniti, que interpreta a filha de Leonardo DiCaprio, seja uma estrela do cinema. Ela está sempre à frente da ação. Ela domina a tela, ela inspira, ela nos traz esperança.

São poucos os filmes que eu acho que conseguem ser tão ligados nos dias atuais sem parecerem feitos sobre os dias atuais. Um pouco disso, e o próprio filme parece mostrar, é que o racismo, a xenofobia e a colonização são ameaças constantes na sociedade — e enquanto eles existirem, existirão os revolucionários. Não acho que seja coincidência que PTA tenha encenado “centros de contenção de imigrantes” da forma que filmou. Eles parecem ser referências diretas às prisões nas quais milhares de imigrantes estão sendo contidos nos EUA. O que mais chama a atenção é ver a coragem de Anderson de filmar tanto esses locais quanto a polícia e o governo americanos com tanta franqueza. Não existem figuras de linguagem aqui. É pau, pedra, o fim do caminho. Como A Batalha de Argel, que _Uma Batalha Após A Outra_cita e se inspira, esse é um filme que vai atravessar o tempo. Não só um documento histórico de como o cinema era quando foi feito, mas como ele deveria ser também. Furioso, mas de coração gigante.

Desculpem a ausência ontem pra falar de Vidas ao Vento e Nausicaä do Vale do Vento. Eu acabei aproveitando pra assistir Uma Batalha Após A Outra, o novo filme do Paul Thomas Anderson (logo mais escrevo um pouquinho sobre o que é, provavelmente, o melhor filme que eu assisti esse ano).

Também tem um motivo de curadoria. Eu acho que A Viagem de Chihiro devia ser o último filme da primeira parte do Ghibli Fest. É um filme tão perfeito, tão definitivo, que não dá pra evitar uma certa decepção com o que vem a seguir, mesmo que os filmes que se seguiram na mostra sejam ótimos filmes.

Vidas ao Vento foi, por um pouco mais de uma década, o último filme de Hayao Miyazaki: uma carta de amor ao seu pai e ao conflito ético de ser um criador cujas criações destruiram vidas. O filme é muito lindo, como é de se esperar, mas é claramente um filme menor. As estruturas dos filmes de Miyazaki são movidas muito mais por sentimentos e um crescimento interno de seus personagens. A narrativa progride com uma lógica interna que, se você contar, parece que tá falando bobagem — ela só funciona nos filmes em si. Nesse caso, Vidas ao Vento é um filme menos inventivo, porque o caráter bibliográfico da história nunca bate bem com o fluxo narrativo que Miyazaki entrega, e um acaba interrompendo o outro. O Menino e a Garça parece muito mais um resumo da obra de um mestre que Vidas ao Vento. Não deixa de ser lindo e emocionante. Mas é aquele baque, depois de assistir uma obra-prima. Eu devia ter esperado mais um dia.

Nausicaä no meio de uma floresta de fungos gigantes

Nausicaä do Vale do Vento não tem o obstáculo estrutural que me incomoda em Vidas ao Vento, e não tem culpa também de existir Princesa Mononoke, uma versão muito mais impecável desse filme. Nausicaä foi feito um pouco antes do Studio Ghibli existir de fato, mas as preocupações que Miyazaki explora em sua carreira estão aqui: a ação regida pelo desenvolvimento emocional de sua protagonista mais do que progressão da história, o conflito entre o homem e a natureza, a conexão espiritual com o mundo e os seus mistérios. A animação já é surpreendente — desde cedo Miyazaki tem uma mão fantástica para criar esses mundos repletos de incertezas e caos, e cheios de beco sem saída que eu adoraria me perder. Não é tão impactante quanto Princesa Mononoke nem O Menino e a Garça, seus descententes mais semelhantes na filmografia do diretor, mas é ótimo mesmo assim.

↪ The Internet Mapping Project

Eu tropecei nessa página do site de Kevin Kelly em que ele pede pras pessoas ajudarem ele a mapear a internet. Mas não mapear toda a internet, mapear como as pessoas organizam ela na mente.

É um projeto que tá rolando desde 2009. Eu não sei se ele acabou, mas no álbum completo existem mapas publicados até 2019. (Como é bom tropeçar num link pro Flickr).

Aqui vão alguns bacanas:

Mapa mental da internet com email no centro, circundado por RSS e Firefox. Ao redor, serviços como Google, Amazon, blogs, fóruns e redes sociais. À esquerda, ferramentas como BeaCon e Watch Dogs. Abaixo, uma base rotulada como 'Sanbox'. Desenhado por um herético de 48 anos que passa 14 horas por dia online.

Diagrama de rede centrado em 'My Webmail (home)' conectado a diversos serviços: Gmail, Facebook, Twitter, Flickr, Yelp, blogs variados (Design Observer, Orange Beautiful Blog, Glamorous Blog), sites de notícias e recursos profissionais. Inclui áreas temáticas como Fishbowl NY e Revolving Door. Criado por um diretor de arte de 29 anos que passa 6 horas diárias online.

Mapa ilustrado da internet como paisagem: montanhas representam IRC e fóruns chineses; Pirate Bay como baía; 'My Home' como casa central; Twitter e Facebook como rio; grandes logos de BLOGS, Amazon, e Google como formações de relevo; 'The Cloud' com serviços Gmail, Calendar e Docs. Desenhado por um editor/autor de 37 anos com 5 horas diárias online.

Diagrama simétrico com 'I AM RIGHT HERE' no centro, conectado a cinco áreas principais: Wretch.com (fotos, blogs, vídeo), Wikipedia, Facebook (fotos, vídeos, amigos), Yahoo (shopping, webmail), e Google (web, imagens, mapas). Também inclui YouTube e Vedia. Criado por um estudante de 14 anos que passa 1-2 horas por dia online.

Representação concêntrica da internet: 'HOME' no centro absoluto, circundado por múltiplas camadas expansivas de pequenos retângulos interconectados formando uma esfera, simbolizando a vastidão e interconexão da rede. Desenhado por um estudante/artista de 23 anos que passa 5 horas diárias online.

Diagrama técnico de infraestrutura: nuvem 'Internet' no topo conectada a servidores (Google.co.uk, Fujitsu.co.jp, Cegeplimolieu.ca, entre outros) e à rede doméstica com Videotron TGV120, D-Link DL-604L, e computador FX-8350. Criado por um Desktop Resolver lvl2 de 39 anos que passa 12 horas diárias online.

Kelly postou uma taxonomia desses mapas depois, e oferece um PDF com o modelopara que pessoas desenhem um mapa e mandem para ele de novo. Eu não sei se ele ainda aceita novos mapas, mas Tiffany N do Cyber Celibate está criando um novo projeto semelhante, e aceita novos mapas até dia 20 de outubro. Você pode enviar seu mapa para tiffany@breakfastatmyhouse.com, o único requisito é que você indique onde está a home da sua internet no mapa.

Se você quiser me mandar um mapa da sua internet, eu aceito também.

O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro não fazem sentido. Suas lógicas internas são incertas. As regras de seus mundos são inconstantes. O que uma pessoa vê na outra é um mistério. Nada faz muito sentido. Ainda bem.

O Castelo animado entre as montanhas

Em O Castelo Animado, uma chapeleira solitária é amaldiçoada e assume a forma de uma senhora de noventa anos. Ela foge para as Terras Devastadas, uma região longe da sua cidade, em um país que está em guerra com outro. Lá ela conhece Howl, e seu Castelo Animado. Ela forma uma família dentro daquele castelo, descobre a verdadeira natureza de seus sentimentos. Se apaixona, cruza dimensões, revela a verdadeira forma de um demônio e de um espantalho. Ela acaba se apaixonando por Howl, e ele acaba se apaixonando por ela também.

Não é o que acontece em O Castelo Animado que importa — mas como acontece. Sophie descobre que seus sentimentos importam, e que deve confiar neles. É uma lição simples, mas que reverbera a ponto de influenciar uma guerra inteira, a guiar um grupo de pessoas a formarem uma família. É um filme gigante — ele se extende em horizontes distantes, múltiplas cidades e linhas do tempo que se chocam. No centro de tudo isso, porém, está Sophie, que aprende a lidar com cada um dos sentimentos que ela aprendeu a reprimir — sua curiosidade, sua determinação, sua paixão. Todo esse mundo vasto e incerto vai ficando mais lindo conforme ela mesma vai se reconectando com seus sentimentos. Faz sentido porque o que Sophie sente faz sentido.

Chihiro olha um bonde passando no meio do mar durante a noite

A Viagem de Chihiro é uma obra-prima. E não faz sentido nenhum também: Chihiro e seus pais estão se mudando para uma nova cidade. Eles acabam cruzando o limiar e entrando no mundo dos kami. Os pais de Chihiro se comportam mal, e viram porcos. Para salvá-los, Chihiro precisa trabalhar para a bruxa Yubaba em sua casa de banhos.

As regras do lugar são incertas desde o início, e sempre que você acha que pegou o jeito, elas mudam. Mas Chihiro também muda. No início do filme, Chihiro mal sabe tudo o que está sentindo — ela está irritada de deixar os amigos pra trás, e o medo toma conta dela de tal maneira que ela mal consegue descer os degraus da escada que levará ela até o Kamaji. Quando ela toma a iniciativa de ajudar uma das fuligens a terminar seu trabalho, ela é movida pelos mesmos sentimentos grandiosos que ela sentia antes — compaixão, curiosidade, um pouco de medo. Mas ela age sobre eles, e então ganha a confiança do Kamaji. Ao usar seus sentimentos para guiar sua jornada, Chihiro vê seus colegas na casa de banho respeitando-a cada vez mais. Chihiro tem uma missão — duas, quando o filme acaba —, e sua determinação muda tudo dentro dela.

Muito de A Viagem de Chihiro é incompreensível. Por que as pernas de Chihiro param de funcionar? Por que o bebê de Yubaba é gigante? O que faz o selo de Zeniba? O filme passa por essas perguntas muito porque segue a lógica de um conto de fadas, que geralmente deixa mais dúvidas do que respostas em seu caminho; mas também passa por elas porque A Viagem de Chihiro tem confiança total em sua protagonista. Ela segue em frente em meio à essa incerteza toda. Não por falta de interesse, mas porque ela tem uma missão a cumprir. A menina que mal caminhava sem estar sendo carregada pelos pais anda descança pelos trilhos submersos no mar para pedir à uma bruxa a alma de seu amado de volta.

Todo A Viagem de Chihiro é perfeito, mas eu não consegui segurar a emoção quando Chihiro, Boo, o passarinho e o Sem Rosto pegam o trem e cruzam esse mundo de melancolia e solidão. As notas do piano na trilha de Joe Hisaishi parecem o vento noturno nas janelas do trem. Não tem sequência mais linda no cinema. Muito do que acontece ali é misterioso também. Tem a sombra de uma garota sozinha em uma estação de trem. Quem ela está esperando?

Nada disso faz sentido em A Viagem de Chihiro, mas tudo o que Chihiro sente faz. Desespero, medo, fascinação, confusão. E os filmes de Miyazaki são guiados pelos sentimentos de seus protagonistas, muito mais do que lógicas narrativas e arcos dramáticos. Seus vilões são temporários, as estruturas são impermanentes, e muitas vezes já viraram ruínas. Reinos e guerras mudam e acabam. Seus personagens tem apenas seus sentimentos como guia, e como companhia nesse mundo. São seus sentimentos que eles aprendem a entender e confiar. Não há um sentimento ruim — nem o medo, nem o desespero, são fúteis. Como as colinas gramadas gigantescas, os horizontes distantes, a mitologia incerta, os voos triunfais e a trilha de Joe Hisaishi, essa é uma das constantes do cinema de Hayao Miyazaki. E é o vento norte de sua obra-prima. Absurdamente mágico.