Para a SUMAÚMA, um dos melhores sites da internet, Wajã Xipai entrevistou o seccretário-chefe da ONU. Wajã é o primeiro indígena a entrevistar com exclusividade o líder da ONU. A entrevista em si é ótima, mas esse é o relato de Wajã sobre a situação: suas preocupações sobre como abordar suas perguntas, sobre mostrar a cicatriz aberta da Amazônia sem reduzí-la a isso.
Wajã:
Como é ver o planeta-casa do lugar de Guterres aos poucos se convertendo em um lar hostil? Eu sei como é sentir, na pele e na alma. Acredito que na alma ele também entenda como é. Por isso, em vários momentos enquanto ele falava fiquei imaginando como seria a resposta dele se eu o levasse até meu território. Ele teria que sair da única cidade que frequentamos, Altamira, na Amazônia paraense, até minha terra. A viagem seria de voadeira e, dependendo da época do ano, quando os rios podem estar mais ou menos secos, ela duraria de três a seis dias. Uma parte seria navegada pelas águas violentas do Rio Xingu, depois entraria em outro rio, o que corre na minha aldeia, o Iriri.
Então, se a viagem fosse no verão, quando há seca, em vários momentos ele teria que sair da voadeira para ajudar a empurrá-la, porque a cada verão o Iriri vai ficando mais seco, a ponto de a embarcação se arrastar no leito do rio. Ele então poderia ver com seus próprios olhos que o rio também teria tons bem esverdeados por causa da floração de cianobactérias, que se beneficiam da água mais quente e dos nutrientes presentes nos sedimentos jogados pelo garimpo ilegal. Queria perguntar se ele entende o que é ver o rio de sua aldeia mudar de cor.