Meu livro favorito é “A Visita Cruel do Tempo”. Em um dos capítulos acompanhamos um homem, Ted Hollander, procurando a sobrinha, Sasha. Sasha é o mais próximo que o livro tem de uma protagonista. Cada capítulo do livro gira em torno de uma pessoa que pode ou não ter conhecido ela. As vezes, se passa muito tempo antes dela nascer, com pessoas que vão conhece-la muito tempo depois.

Nesse capítulo, Ted encontra Sasha, que fugiu da casa da mãe há alguns anos. Ele encontra ela em Nápoles. Quando eles se encontram, ela o leva pro quarto dela, e ele pergunta o que ela tem para querer viver num lugar tão ruim.

A Sasha espera o momento exato em que o sol passa pelo pequeno buraco na parede que ela chama de janela, em que ele preenche exatamente aquele espacinho e ilumina seu rosto. “Ele é meu”, ela fala pro tio, que observa como, realmente, quando o sol entra pela fresta, ele parece ser todo dela.

Muitos anos depois de ler esse livro eu me peguei tomando meu último café do dia na minha sacada. É um ritualzinho que eu adoro fazer, mas que foi se fazendo tão lentamente que eu nem percebi que era um. Quando eu percebi que eu gosto de ficar na sacada nos últimos momentos de sol, eu percebi que minha casa tinha virado meu lar, e eu lembrei daquele trecho do livro, que finalmente fez sentido. Aquele pedacinho de céu, todo da Sasha. Esse é o meu, esse é o da minha casa.

Ótima a comparação que Jennifer Egan faz da internet com o conto de João e Maria: a casa de doces é “de graça”, mas quanto mais você come, mais chances você tem de ser devorado.

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Eu vi um menino correndo
Eu vi o tempo brincando ao redor
Do caminho daquele menino

Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei
O sol ainda brilha na estrada
E eu nunca passei

Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga

A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou
O sol que atravessa essa estrada
Que nunca passou

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha…
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

Eu vi muitos cabelos brancos
Na fronte do artista
O tempo não para e no entanto
Ele nunca envelhece

Aquele que conhece o jogo
Do fogo das coisas que são
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão

Eu vi muitos homens brigando
Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta

E a coisa mais certa de todas as coisas
Não vale um caminho sob o sol
E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha…
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha no ar
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha