Minha mãe tirou essa foto da minha irmã e eu sentados embaixo da árvore que fica no lado da casa em que a gente cresceu. Essa foto já tem quase dois anos, foi tirada em agosto de 2022.

Eu gosto muito dessa foto. Nem eu e nem minha irmã estávamos bonitos nela. Estávamos, os dois, cansados depois de um longo dia de trabalho, e nós dois estávamos na casa dos nossos pais porque precisávamos descansar. Eu estava passando por um momento bem difícil depois de um término. Minha irmã tava a algumas semanas de dar a luz ao Caetano.

Nós dois nos refugiamos no jardim em que crescemos, e eu adoro lembrar desse momento específico. Eu acho, hoje, que foi nossa última oportunidade de sermos “só” irmãos um do outro. Fazia um tempo que a gente não fazia isso. A Mana saiu cedo de casa para trabalhar, e eu fui logo depois, e tivemos poucas oportunidades desde então de estarmos sem outras responsabilidades na cabeça, envolvidos com os problemas de outras pessoas.

Por duas semanas em agosto de 2022 eu corri pros braços da minha irmã mais velha e pedi ajuda dela pra lidar com algo que eu não entendia direito, mas que sabia que ela ia poder me ajudar. Eu fazia isso há vinte anos, quando quebrava um prato ou copo dos meus pais e corria pra minha irmã e pedindo ajuda pra ela ajeitar a situação. Ela sempre dava um jeito. Ela deu um jeito ali também.

Eu gosto de como somos irmãos independentes um do outro, mas eu gosto do nosso companheirismo mais ainda. A gente tem a coragem de se virar sozinho porque sabe que, se não der certo, tem o outro pra ajudar. Só de saber que minha irmã tá a um “mana” e de distância me dá toda a coragem que eu preciso.

Quer um exemplo? Entre os vários apartamentos que visitei, teve um que tava um caos. Mas foi nesse que minha irmã imaginou que, tirando uma parede, limpando uns azulejos, e decorando do jeito certo, ia virar uma casa. Desde então, é a minha casa. A Mana tem esse tipo de visão, esse tipo de coragem. Tendo ela ali do meu lado na hora de tomar a decisão, eu tive essa coragem também.

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Eu descobri só quatro dias depois que temos um novo vídeo-ensaio da ContraPoints sobre ficção?

poetsandwriters poetry is not about an event

poetsandwriters:

“Poetry is not about an event. It is the event. Art is the resistance of complacency: It always stands in opposition to numbness. That is why it just doesn’t die, poetry—despite so many death notices. It is always there, waking us up when we get numb, poking us in the eye.”

Ilya Kaminsky, in Garth Greenwell’s “Still Dancing” interview in the March/April issue of Poets & Writers Magazine (2019)

Facebook e Instagram estão fora do ar? Excelente alternativa pra excluir esses aplicativos do celular e fingir que eles não existem mais!

Minha dieta cultural de janeiro

Eu tô bem contente com esse primeiro mês desde que eu comecei a minha nova “rotina cultural”. Não precisar escolher o que fazer no fim de cada dia liberou muito mais tempo para eu ler, ver e jogar mais. Por exemplo, embora o “dia de ler” seja na terça, o tempo que antes passaria decidindo o que ia fazer na quinta eu acabo usando para ler mais, etc.

Um outro efeito interessante dessa rotina: a pesquisa do filme que eu vou ver, ou do próximo livro que eu vou ler, virou uma diversão. Eu gosto de usar os intervalos do trabalho, ou o meu dia “livre” na sexta, para ler sobre um diretor ou um movimento do cinema que eu quero explorar nas próximas quartas, ou planejar a ida no cinema. É uma empolgaçãozinha que eu não sentia faz tempo. Essa rotina acabou me trazendo aquela curiosidade cultural que eu tinha de volta, e eu tô muito satisfeito com isso.

Enfim. Aí vai um resumo desse início de ano:

  • Filmes: eu corri atrás de alguns dos filmes do ano passado, como Folhas de Outono, Fale Comigo, Anatomia de uma Queda, a restauração de Tempo de Amar e o meu filme de aniversário (e novo favorito!), Segredos de um Escândalo. 2023 foi um bom ano pra filmes!
  • Jogos: pouquíssima coisa nova, eu voltei a jogar Breath of the Wild porque eu sou apaixonado pelo silêncio e a solidão desse jogo, algo que eu sinto falta em Tears of the Kingdom. Eu também dei uma explorada no catálogo do Apple Arcade e joguei um bocado de Outlanders e Japanrse Rural Life Adventure. Os dois são joguinhos muito charmosos.
  • Séries: eu comecei a acompanhar a quarta temporada de True Detective, que arrasa (a única temporada boa da série desde a primeira), reprisei as segundas temporadas de The Bear e Somebody Somewhere, e acompanhei a primeira fase de Renascer. Acho que é a novela mais bonita que eu já vi.
  • Livros: eu comecei A Casa de Doces, a continuação espiritual do meu livro favorito (A Visita Cruel do Tempo). Os primeiros dois capítulos são frios demais pro meu gosto, mas logo que Sasha reaparece na história, Jennifer Egan dá aquela imensidão de escopo e emoção na história que atravessa décadas e dezenas de vidas. Ela ainda sabe capturar o tempo, e agora com aquele gostinho da tragédia da promessa do digital. Demorei, mas agora por fevereiro eu engatei nessa leitura.

Algumas outras impressões sobre _O Menino e a Garça_

Eu escrevi sobre O Menino e a Garça ali no Letterboxd, mas eu ainda tenho algumas impressões não muito desenvolvidas que eu quero colocar aqui.

  1. A cena inicial, e algumas cenas mais para o final, quando os periquitos entram em cena, parecem mais vindas de um filme do Isao Takahata — são mais simbólicas, cheias de transformações e deformações. Eu gostei muito.
  2. Assim que o filme acabou eu fiquei pensando o quão corrido ele parece ser. Meu principal ponto de referência eram os relacionamentos de Mahito com os outros personagens, que não parecem se desenvolver mas sim “avançar” de um estágio pra outro, sem muita nuance. Mas daí eu lembrei que eu sinto isso quando vejo A Viagem de Chihiro, é que muito do que eu “lembro” sobre o relacionamento de Chihiro com outros personagens acontece mais na minha mente — Miyazaki oferece momentos entre Chihiro e Lin, por exemplo, mas existe um desenvolvimento ali que é criado pela minha lembrança sentimental do filme. Tomando banho depois do filme e pensando antes de jantar, eu percebi que minha mente já estava criando esse desenvolvimento entre Mahito e Himi, por exemplo. É um jeito extremamente eficaz de escrita.
  3. Vários momentos lindos no filme: o voo dos warawara formando sequências de DNA, o incêndio, o ataque de papeis. Mas o mais impressionante pra mim foi aquela cena silenciosa de Mahito enxergando o pé da escada em silêncio, vendo apenas os sapatos dele e de sua madrasta e, quando seu pai chega, a parte de baixo dos corpos do pai e de sua nova esposa. É um momento pequeno e silencioso, mas a maturidade com que Miyazaki exibe o limite do que uma criança está compreendendo de uma situação é impressionante. Só essa cena traduz muitas das ações de Mahito no filme até ali.
  4. Tô completamente intrigado com Mahito se machucando no início do filme, e como Miyazaki não responde o que o fez fazer aquilo. Foi para que os seus colegas fossem punidos, ou simplesmente porque ele queria uma desculpa para não ir para a escola? Ou, mais intrigante ainda, foi porque ele imaginou que assim ele iria encontrar a própria mãe?