Minha dieta cultural de janeiro

Eu tô bem contente com esse primeiro mês desde que eu comecei a minha nova “rotina cultural”. Não precisar escolher o que fazer no fim de cada dia liberou muito mais tempo para eu ler, ver e jogar mais. Por exemplo, embora o “dia de ler” seja na terça, o tempo que antes passaria decidindo o que ia fazer na quinta eu acabo usando para ler mais, etc.

Um outro efeito interessante dessa rotina: a pesquisa do filme que eu vou ver, ou do próximo livro que eu vou ler, virou uma diversão. Eu gosto de usar os intervalos do trabalho, ou o meu dia “livre” na sexta, para ler sobre um diretor ou um movimento do cinema que eu quero explorar nas próximas quartas, ou planejar a ida no cinema. É uma empolgaçãozinha que eu não sentia faz tempo. Essa rotina acabou me trazendo aquela curiosidade cultural que eu tinha de volta, e eu tô muito satisfeito com isso.

Enfim. Aí vai um resumo desse início de ano:

  • Filmes: eu corri atrás de alguns dos filmes do ano passado, como Folhas de Outono, Fale Comigo, Anatomia de uma Queda, a restauração de Tempo de Amar e o meu filme de aniversário (e novo favorito!), Segredos de um Escândalo. 2023 foi um bom ano pra filmes!
  • Jogos: pouquíssima coisa nova, eu voltei a jogar Breath of the Wild porque eu sou apaixonado pelo silêncio e a solidão desse jogo, algo que eu sinto falta em Tears of the Kingdom. Eu também dei uma explorada no catálogo do Apple Arcade e joguei um bocado de Outlanders e Japanrse Rural Life Adventure. Os dois são joguinhos muito charmosos.
  • Séries: eu comecei a acompanhar a quarta temporada de True Detective, que arrasa (a única temporada boa da série desde a primeira), reprisei as segundas temporadas de The Bear e Somebody Somewhere, e acompanhei a primeira fase de Renascer. Acho que é a novela mais bonita que eu já vi.
  • Livros: eu comecei A Casa de Doces, a continuação espiritual do meu livro favorito (A Visita Cruel do Tempo). Os primeiros dois capítulos são frios demais pro meu gosto, mas logo que Sasha reaparece na história, Jennifer Egan dá aquela imensidão de escopo e emoção na história que atravessa décadas e dezenas de vidas. Ela ainda sabe capturar o tempo, e agora com aquele gostinho da tragédia da promessa do digital. Demorei, mas agora por fevereiro eu engatei nessa leitura.

Algumas outras impressões sobre _O Menino e a Garça_

Eu escrevi sobre O Menino e a Garça ali no Letterboxd, mas eu ainda tenho algumas impressões não muito desenvolvidas que eu quero colocar aqui.

  1. A cena inicial, e algumas cenas mais para o final, quando os periquitos entram em cena, parecem mais vindas de um filme do Isao Takahata — são mais simbólicas, cheias de transformações e deformações. Eu gostei muito.
  2. Assim que o filme acabou eu fiquei pensando o quão corrido ele parece ser. Meu principal ponto de referência eram os relacionamentos de Mahito com os outros personagens, que não parecem se desenvolver mas sim “avançar” de um estágio pra outro, sem muita nuance. Mas daí eu lembrei que eu sinto isso quando vejo A Viagem de Chihiro, é que muito do que eu “lembro” sobre o relacionamento de Chihiro com outros personagens acontece mais na minha mente — Miyazaki oferece momentos entre Chihiro e Lin, por exemplo, mas existe um desenvolvimento ali que é criado pela minha lembrança sentimental do filme. Tomando banho depois do filme e pensando antes de jantar, eu percebi que minha mente já estava criando esse desenvolvimento entre Mahito e Himi, por exemplo. É um jeito extremamente eficaz de escrita.
  3. Vários momentos lindos no filme: o voo dos warawara formando sequências de DNA, o incêndio, o ataque de papeis. Mas o mais impressionante pra mim foi aquela cena silenciosa de Mahito enxergando o pé da escada em silêncio, vendo apenas os sapatos dele e de sua madrasta e, quando seu pai chega, a parte de baixo dos corpos do pai e de sua nova esposa. É um momento pequeno e silencioso, mas a maturidade com que Miyazaki exibe o limite do que uma criança está compreendendo de uma situação é impressionante. Só essa cena traduz muitas das ações de Mahito no filme até ali.
  4. Tô completamente intrigado com Mahito se machucando no início do filme, e como Miyazaki não responde o que o fez fazer aquilo. Foi para que os seus colegas fossem punidos, ou simplesmente porque ele queria uma desculpa para não ir para a escola? Ou, mais intrigante ainda, foi porque ele imaginou que assim ele iria encontrar a própria mãe?

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I heard of a legend
And that’s where I go
If my sister calls
Tell her I’m diving into the deeper end

To the edge of wonder
Where the wire stretches
‘Cause where I go
‘Cause where I go it’s trembling

Me emocionei nessa passagem do tempo delicada em Renascer. Belíssima, e sensível, a forma que o Jupará nos deixa.

Eu ando tendo umas noites sem conseguir dormir nessa última semana, e pela primeira vez nesse quase um ano sem Twitter, eu senti falta daquele lugar.

Não do Twitter em si, mas de ter um lugar em que meus outros amigos que provavelmente estão passando por uma insônia também estejam, para que possamos conversar até um a um cair no sono. Eu até tenho uma conta no Bluesky, mas meus amigos não estão lá — então não tenho ninguém pra comentar o BBB ou o novo episódio de True Detective, por exemplo.

Em noites assim eu sinto falta da companhia das crianças do brilho.