Como eu blogo por aqui

O Ghedin trouxe pra esse lado da internet uma corrente gringa de como é o fluxo para blogar.

Eu posto no Tumblr, o que é mais fácil. Alguns posts mais breves surgem do celular ou do navegador mesmo (como uma foto ou uma efêmera). Esse é um deles.

No geral, os textos mais longos são criados de outra forma. Eu demoro pra escrever, então eles nascem e são publicados usando o MarsEdit, onde eu costumo editar meus posts e gerenciar suas tags. O suporte a Markdown na nova versão do MarsEdit melhorou muito, e acho um fluxo de escrita muito melhor que o editor de blocos padrão do Tumblr.

Eu desenvolvi o tema do meu blog pensando nisso. O MarsEdit usa a forma “antiga” de tipos de post do Tumblr, e eles possuem variáveis de template específicas. Já o NPF, o novo formato de posts que é gerado pelo editor de blocos nativo do Tumblr, usa somente o formato de texto com uma estrutura específica, com classes CSS para formatação. Eu basicamente “copiei” a estrutura gerada pelos blocos de link, vídeo, áudio e citação do NPF para o formato clássico. Assim eu posso ter um CSS único para os dois formatos de publicação.

Eu já mantive esse blog com WordPress e com o Jekyll no GitHub Pages, mas a versatilidade de usar o Tumblr no celular para postar uma efemeridade e a simplicidade do seu motor de temas comparado ao Gutenberg nos dias de hoje me trouxe a falta de preocupação que faltava. Domínios personalizados de graça foi um extra (hoje em dia esse é um recurso pago por aqui, mas como fiz o mapeamento há muito tempo, eles mantiveram como algo gratuito).

Casa

Já faz um tempo que eu me planejo pra escrever sobre a minha casa. Ela tem sido um “projeto de vida” imenso para mim, e o meu foco principal nesses últimos três anos. Minha casa revelou tanto de mim para mim mesmo, e me confortou em tantos momentos (em tão pouco tempo!), e foi o lugar que eu mais encontrei alegria em meus dias.

Eu tenho pensado em escrever sobre tudo isso por um tempo já. E daí a enchente veio.

Minha casa não foi afetada pela tragédia. Eu estou a salvo nela de novo. Mas, por quinze dias, eu tive que deixá-la. Eu passei duas semanas longe dela (não é muito tempo!), mas o alívio de vê-la de novo só assentou em mim ao ver as fotos da vida que eu construí nela em suas paredes. Eu estava em casa.

Essa é uma história feliz em meio a muitas histórias tristes, terríveis, de pessoas perdendo suas casa e suas vidas. Algumas estavam reconstruindo-as desde a última enchente, e a água veio e levou tudo de novo. Eu vejo as pessoas sendo salvas ou encontradas nas ruínas de suas próprias casas. Eu vejo cachorros e gatos e galinhas e porcos e cavalos lutando para sobreviver. Alguns são resgatados. Outros não conseguem encontrar abrigo a tempo. É tudo tào triste, é tudo tão trágico. Tudo o que eu faço para ajudar não é muito. É uma tragédia que me lembra sempre da pequenez da minha existência quando estou sozinho. Um pouco de doações aqui e ali parecem pequenas gotas em um balde vazio. Eu posso passear com os cachorros abrigados, doar algum dinheiro e comprar algumas coisas para os abrigos. E então eu volto para casa, e o som da chuva — que já foi meu som favorito para ir para a cama — assombra minha noite.

Eu e alguns amigos deixamos nossas casas bem rápido. Eu já estava sem luz e sem água por três dias quando nós decidimos deixar Porto Alegre. Meu prédio já estava vazio. Todos deixaram e dormir em um prédio vazio em um bairro alagado ficou preocupante. Eu moro no centro, o que me fez no passado desejar que o bar ao lado da minha casa fechasse mais cedo, ou que as pessoas falassem mais baixo. Mas depois de dias (e, agora, semanas) dormindo no silêncio completo de um bairro esvaziado, eu sinto falta do barulho reconfortante de viver ao redor das pessoas.

Eu lembro que eu coloquei minhas plantas na minha sacada, para que a água da chuva pudesse molhá-las enquanto eu estava fora. Eu fechei minhas janelas, e deixei minha geladeira (já esvaziada) aberta. E então eu fui para a casa de minha amiga, onde eu dormi na sala para que pudéssemos sair na primeira hora da manhã.

Eu viajo nas minhas férias, e vou visitar meus pais nos fins de semana. Deixar minha casa nunca foi um drama antes, mas era um sentimento diferente dessa vez. Já dava para perceber como a cidade que eu estava deixando não era a mesma na qual eu vivia. A escuridão e o silêncio pairavam sobre ela, cercados pela água e pelo lodo.

É devastador. Pelos próximos dias, nós assistíamos as notícias e a destruição total de tudo ao redor de nossas casas — bairros alagados em menos de uma hora, cidades inteiras destruídas, algumas pela terceira vez em menos de um ano. Pessoas perdidas, pilhas de corpos de animais aparecendo.

Eu sou muito sortudo de ter uma casa para voltar enquanto abrigos estão cheios de pessoas que não sabem se suas casas ainda existem, ou já sabem que precisarão começar de novo, de novo. Quando eu voltei, eu liguei as luzes e o barulho da minha casa, silenciado por semanas, começou de novo. Eu coloquei minhas plantas de volta em seus lugares, lavei a louça que estava acumulada pela falta d’água, e sentei na minha mesa e olhei para as fotos dos momentos vividos nesse mesmo lugar. As memórias que essa casa me deu. E então eu chorei.

Eu tenho chorado aqui e ali desde então, pelas menores e maiores das razões. Pelas histórias que eu ouço, de salvamentos e de perdas. E por detalhes que eu amo na minha casa.

Pelos últimos três anos, eu venho construído ela devagar, mas com carinho. Em troca, ela me revela coisas sobre mim — como eu organizo as coisas, ou o que eu acho bonito ou interessante. E, lentamente, essa casa me dá conforto, e me dá meu reflexo em suas paredes e nas coisas que habitam ela. E então me dá memórias de como era antes, e o que mudou para me fazer querer mudá-la. Ela é, literalmente, tudo pra mim.

E eu não consigo imaginar a dor que seria de perdê-la, mas eu vejo essa dor em todo o lugar, o tempo todo, ao redor. Ela é silenciosa e escura. Ela cheira a lodo e a animais mortos. Eu a vejo quando atravesso as ruas do centro e o barulho da água aparece. Ela é a fome, o frio e o medo. E ela tá em todo o lugar ultimamente.

Transformando a internet em um lugar

Tenho feito um experimento de “isolar” meu contato direto com a web para a minha escrivaninha, e os resultados têm sido bons. É impossível isolar a internet da minha vida hoje em dia, mas estou me referindo como “contato direto” à minha navegação na web, tanto para trabalho quanto para lazer. Com isso, meu relacionamento com ela tem sido cada vez melhor.

Essa experiência vem de uma espécie de nostalgia por um tempo em que eu só podia acessar a internet depois da meia-noite nos dias de semana ou aos finais de semana, quando o pulso era mais barato. Era como atravessar por um portal para a internet. Era um lugar — na “salinha do computador” na casa dos meus pais, explorando a Wikipédia ou o blog de alguém sobre um tópico específico. Foi assim que descobri meu amor pela história do cinema e meu primeiro contato com os jogos e a própria arquitetura da web. Coisas que moldaram profundamente minha vida profissional e pessoal.

Eu ainda tenho uma TV que funciona majoritariamente pela internet, por exemplo, e meu relógio também é “inteligente”. Ele me avisa que está chovendo muito e eu não deveria sair de casa esta semana (o que é verdade, está chovendo muito lá fora!), mas meu telefone geralmente está perto da minha escrivaninha hoje em dia — ou no meu bolso quando estou cozinhando e esperando uma ligação. Eu acabo respondendo às minhas mensagens e ao meu e-mail apenas quando chego perto do computador, e tem sido ótimo. “Hora de conversar com meus amigos” ou “hora de ler sobre o design de circuitos do GameCube”. Chega de lutar contra o tédio enquanto estou sentado no sofá, tentando prestar atenção em um programa de TV ou na cama, antes de dormir. Meu tempo de leitura tem aumentado muito ultimamente, e também minha pesquisa na web. Quando chego na internet, geralmente é para fazer algo específico — escrever no meu blog, pesquisar sobre um tema, me aventurar no meu Pocket…

Eu acho que isso tem sido tão, tão bom. A internet se tornou um lugar na minha casa, e não uma coisa que eu guardo no meu bolso. Tornou-se um portal novamente, para a curiosidade e para a descoberta. Também tem sido libertador. Depois de um dia inteiro de trabalho, deixo ela para trás para fazer outra coisa, e não está mais me incomodando no meu telefone — agora que é uma ferramenta “entediante”, com as notificações desativadas.