Quando eu lembro da Delinha, ou da Vivi, ou do Pepi, ou do Tigre, eu nunca lembro dos momentos banais do nosso dia-a-dia juntos, de como foi bom crescer e viver ao lado deles. Daquele ócio, daquela banalidade doce que a segurança da companhia deles trazia.

Eu lembro, sempre, dos momentos ao redor de suas mortes. Eu lembro de encontrar o Tigre no meio dos escombros, eu lembro do Achei não conseguindo mais levantar, ou de minha mãe chorando porque viu o Pepi atropelado na estrada. Eu lembro da respiração ofegante da Vivi. Eu lembro do olhar assustado da Delinha.

Grande parte das primeiras duas décadas da minha vida foi ao redor deles e, mesmo assim, eu não consigo lembrar instintivamente dos bons momentos que tivemos juntos. Eu preciso querer pensar na vez que levei a Vivi pra praia, e a vi correndo pela areia em direção ao mar sozinha, contente. Eu preciso querer lembrar de ficar deitado no chão fresco da garagem com o Pepi num dia de calor. Recentemente, eu preciso querer lembrar de qualquer outro detalhe da Delinha que não o peso dos seus ossos quando coloquei ela na maca do doutor na manhã que ela morreu, nem do peso do saco em que ela estava quando a levei para o carro.

Essa última semana foi particularmente difícil pra mim por causa disso. Eu pensei na Delinha (e, como sempre nos últimos anos, penso na Vivi todos os dias), mas toda a vez que eu penso nela, eu penso nesses últimos momentos. Eu preciso me esforçar para lembrar do resto. Se eu pensei na Delinha o tempo todo, eu pensei em sua morte o tempo todo também.

Eu sei que isso é parte do luto. Eu já escrevi sobre isso quando a Vivi morreu. O problema, pelo menos por conta de como foi com a Vivi, é que isso não passa. Eu penso na Vivi quase que diariamente desde que ela morreu, mas sempre que eu começo a pensar nela, a primeira imagem que me vem foi eu sentado ao seu corpo, fazendo um carinho no seu pelo mesmo depois de morta, porque queria lembrar da textura de sua pelagem nos meus dedos. Eu já esqueci da textura, mas eu lembro do momento. E o momento é triste. Só depois disso, que eu preciso fazer o exercício de pensar em algum outro momento melhor para lembrar, ou para considerar. É sempre algo que eu preciso fazer ativamente. Lembrar da Vivi é lembrar da sua morte. Querer lembrar da Vivi é quando eu procuro uma boa lembrança na minha cabeça. Delinha viveu dezoito anos comigo, e o único momento trágico que eu tive ao lado dela é justamente o que não sai da minha cabeça quando lembro dela.

Delinha, 2006—2024

Delinha pedindo carinho, enquanto eu dou um beijo na cabeça dela.

Delinha morreu hoje de manhã. Eu saí cedo aqui de casa e fui pra casa dos meus pais. Eu já sabia o que nos esperava hoje. Delinha desenvolveu um câncer nos últimos anos, mas foi nesses últimos dois meses que ele se propagou violentamente no corpo dela. Sem comer pelas últimas semanas, e sem conseguir tomar água já há uns dias. Hoje de manhã, eu e meus pais nos despedimos dela.

Eu não acredito que o sofrimento e a morte dos cachorros com quem cresci e cuidei me ensinam algo. Delinha viveu bem por quase todos os seus 18 anos, mas foi difícil ver sua força se esvair desse jeito, rápido e brutal. Delinha sempre foi uma cachorra muito delicada, não em questão de saúde (ela sempre foi muito forte, e a única complicação que ela já teve foi, justamente, o câncer), com seu olhar manso, seu latido baixo e sua passada silenciosa.

Quando minha irmã encontrou a Delinha, enrolada em uma sacola no meio de uma rua perto de casa, ela tinha dias de vida. Nós dávamos leite pra ela por bastante tempo, porque ela nunca mamou na própria mãe. Delinha era uma filhote feia, com o pelo duro e com cor amarelo-queimado. Conforme crescia, Delinha ficava mais e mais bonita. Seu pelo se alongou, e ficou dourado.

O que nunca mudou na Delinha foi seu olhar. Era meigo, com seus olhos com uma cor castanha, e trazia com ela sua calma e seu silêncio. Delinha sempre foi bastante quieta e solitária. Nós sempre tivemos muitos cachorros e a política interna deles muda de tempos em tempos. Delinha sempre foi alheia a isso. A gente sempre achou ela especial, não só porque ela era belíssima, mas porque sua quietude nos trazia paz em uma casa onde a matilha costuma ser bagunceira. Ela gostava de dormir sozinha, embaixo do carro, depois no banheiro do andar de baixo. Lá ela ficava, e nós precisávamos visita-la para fazer carinho e conversar.

Quando Delinha saía dos seus esconderijos e nos agraciava com sua presença, era um momento especial. Ela “sorria” (algo que ela aprendeu a fazer em algum momento), e pedia um carinho. Por um tempo, ela tinha inclusive uma cadeira pra ela, e meus pais tomavam chimarrão ao seu lado. Ela sempre pareceu uma rainha — era um privilégio quando ela decidia nos fazer companhia, não porque era raro, mas porque sua companhia trazia sua calma, sua doçura.

Delinha foi a última integrante da segunda geração de cachorros que chegou em nossa casa. Quando ela chegou, em 2006, eu tinha doze anos, nas férias entre a quinta e a sexta série. Ela fazia parte de uma turma com outros três cachorros: o Pepi, a Cida e o Luva. Ela era a mais nova dos quatro, e foi a que viveu a vida mais longa.

Foi uma dádiva crescer com esse grupo. Eles foram bons companheiros para a minha infância, brincalhões e sábios como só os cachorros podem ser para uma criança. Mas foi a Delinha, dos quatro, que me viu crescer. Ela me acompanhou no ensino médio e na faculdade, me recebia quando eu chegava em casa depois do trabalho e, quando saí de casa, foi sempre meu primeiro abraço ao visitar meus pais. Mesmo quando ficava mais de mês sem visitá-los, ela sempre me olhava com aquele mesmo olhar calmo, doce. “Ah, como é bom ver você” ela parecia dizer, entre cochilos.

Ela não perdeu seu olhar. Quando me despedi dela, na maca do veterinário enquanto ela era anestesiada, ela ainda me olhou daquela forma. Por um momento, seu olhar teve medo. Eu finalmente pude retribuir pra ela a calma e a sabedoria que ela sempre me proporcionou nessas quase duas décadas juntos. Eu segurei sua patinha, fiz um cafuné e esperei ela adormecer. “Ela descansou”, eu fiquei pensando, mas uma parte egoísta de mim pensou “esse foi o último olhar dela pra mim“.

Egoísta, mas sincero. Vou sentir falta dessa companhia, desse olhar. É o tamanho da falta que essa doçura, esse carinho, vão deixar em mim. Foram 18 anos maravilhosos ao lado dela. Um privilégio que foi, crescer ao lado de uma verdadeira rainha.

↪ vgbees.com/dropped-connection-the-loss-of-local-handheld-multiplayer/

Dropped Connection: The Loss of Local Handheld Multiplayer - VGBees

Merrit K:

Why have we turned away from the light of local multiplayer and the beauty of fleeting social gaming connections in an era when more people than ever own devices capable of wifi and Bluetooth communication?

Maybe we don’t want to be connected to those around us. The pandemic didn’t help, to be certain, but the trend away from the developments of the early 2010s started long before it hit. The Streetpass LED on the 3DS, an early form of notification, was a joyful signal. Today, we’re bombarded with notifications and alerts, and many of us have grown weary of them. In theory, modern smartphones could support apps with Streetpass-like features, and location-based dating apps are somewhat similar. But that experience of delight at connecting with another player likely wouldn’t be there because of how ubiquitous the hardware has become.

As both millennials who grew up with the internet and watched it transform and zoomers who have only ever known it in its current, centralized and corporatized mode are beginning to reevaluate their relationships to personal technologies, perhaps now is the time to rediscover what has been lost.