Ontem fui no show do Gilberto Gil, que pelo anúncio faz parte de sua “última turnê”. Eu acredito. Não porque o show foi ruim. Longe disso, talvez tenha sido o show mais alegre e enérgico que eu já fui. Uma exultação da cultura brasileira que Gil tem tanto orgulho de fazer parte. Eu acredito que essa seja sua última turnê porque, além da idade de Gil, ele parecia não querer parar de cantar. Foram quase três horas de show, com um bis imenso.

Gil é um titã, e ir num show dele é presenciar um daqueles momentos transcendentais da nossa vida, em que a gente absorve um pouco do seu tempo no planeta. É impossível não se conectar com a infância dele na Bahia, seus anos de exílio, e sua conexão com sua família. É impossível de pensar o privilégio que é estar presente na companhia de um titã da nossa história, que viu e viveu tanto. E ele tá ali na nossa frente, feliz em cantar e dançar com a gente. Deu pra ver ele tremendo no início do show — tava 11°C ontem de noite — mas ele venceu o frio, moldou o tempo ao redor de nós e fez uma festa. Gil é um titã mesmo.

Minha dieta cultural na última semana #5

O dia hoje tá lindo, e tá geladinho. Bem como eu gosto. Acho que eu vou pegar o Tobias e ir no Açorianos ler um livro de tarde. Tô pensando em voltar pro Feiticeiro de Terramar agora que terminei Uma Visão Pálida das Colinas, mas esse frescor no ar me pede uma história de mistério. Vou ver o que eu tenho aqui pra ler.

Como eu gosto do frio. Esse provavelmente é o último frio do ano — a primavera chega em algumas semanas, e os dias já estão mais quentes. Hoje amanheceu com 9°C, e eu aproveitei cada segundo tomando um café e vendo o sol se levantar. Vou sentir falta desse friozinho.

A semana foi corrida, profissionalmente falando (eu tô trocando de emprego, longa história), mas mesmo assim deu pra aproveitar bastante. Terminei um livro, vi três filmes (um dia eu alcanço os cinco ou seis por semana que eu via quando era jovem!), tô jogando um punhado de coisas… foi bom!

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro)

Amei. Eu terminei esse livro no sábado passado. Logo depois de terminar de escrever sobre a dieta cultural da semana. Eu achava que a puxada de tapete que acontece na metade da segunda parte do livro era quando Ishiguro ia tirar meu chão, mas ele deixa para as últimas palavras do penúltimo capítulo. Um absurdo de ler. Uma maravilha.

Uma Visão Pálida das Colinas se revela justamente nessa dificuldade de ver que o título sugere. É um livro embaçado e, quando o autor sugere que o que você está lendo é ainda mais incerto do que você imagina, o livro parece se embaçar ainda mais. É um feito difícil de conseguir: tornar a visão incerta do protagonista em algo ainda mais incerto sem que o leitor se sinta traído. Pelo contrário, ele prova nossas suspeitas aqui e ali, mas as peças não se encaixam perfeitamente, a sugestão ainda é imprecisa. Corta que é uma beleza.

Filmes: Interestelar (2014), Invocação do Mal 4: O Último Ritual (2025), Certas Mulheres (2014)

Entre sábado e domingo fez uma madrugada fria, e eu perdi o sono. Eu revi Certas Mulheres, um dos meus filmes favoritos, que é um filme calmo e frio, o que o torna uma boa cobertinha em noites em claro. Eu acho esse um filme perfeito, sutil em como a narrativa progride. Eu amo como a Kelly Reichardt observa essas mulheres trabalhando, se importando em capturar a textura de suas roupas, o frio do ar ao redor delas, o som das folhas e galhos quebrando aos seus pés, o ócio das suas noites. É um filme de solidões, é verdade. E é por isso que é tão lindo quando uma dessas personagens tenta se conectar com alguém. Um daqueles filmes que capturam um milagre.

Segunda-feira fui com a Deise rever o Interestelar do Christopher Nolan. Envelhece bem. Eu não sou o maior fã do diretor, e eu acho que ele precisa urgentemente de um roteirista. O início desse filme é Nolan no seu pior — cheio de frases de efeito que comprovam a inteligência do protagonista contra a burrice de todos os outros. Me fez querer ver Ad Astra de James Gray, um filme também cheio de clichês, mas que os usa para tornar o protagonista cada vez menor em meio à imensidão do espaço. O filme fica muito melhor quando vira um filme espacial de fato, e Nolan pode brincar com a relatividade do tempo, que ele ama tanto. Eu ainda acho que o melhor uso desse artifício ficou lá em O Grande Truque, de 2006, o único filme em que Nolan foi honesto consigo mesmo sobre suas pretenções como artista.

Me decepcionei pra caramba com o Invocação do Mal 4. Eu gosto muito desses filmes, o primeiro é um dos meus filmes de terror favoritos dos anos 2010. Em O Último Ritual, o diretor Michael Chaves tenta demais fazer uma continuação dos dois primeiros filmes da franquia depois do seu desastroso terceiro filme, que fugiu muito à fórmula, se centrando em uma assombração em uma casa. O Último Ritual não entrega nem uma família carismática mas claramente com outros problemas além de paranormais (que é o que faz o primeiro e segundo filme terem tanta textura em seus sustos), nem um bom fantasma. Não há análogo à Basheeba aqui, ou eu cochilei bem na hora que eles expliraram que demônio era esse (eu cochilei por uns 10 minutos nesse filme, eu acho). O filme não consegue unir bem o arco da família e dos Warren, e acaba esquecendo um ou outro por mais de meia hora, o que tira o impulso do filme. Alguém arrasta o James Wan de volta pra essa franquia, por favor.

Silksong chegou quinta-feira e eu sou um zero à esquerda nesse jogo, como de costume. Eu sou bem ruim em metroidvanias em geral, mas eu sou terrível em jogos difíceis. Eu gosto muito da ambientação do jogo, tanto visual quanto narrativa, então quero insistir um pouco. Eu acabei desistindo do Hollow Knight original por causa da dificuldade e acabei assistindo outras pessoas jogarem, mas Silksong tem a mesma qualidade de jogabilidade: os movimentos são bons demais, a resposta aos cliques é forte o suficiente… dá muita vontade de continuar. Inclusive: coisa boa poder pagar menos de 100 reais por um baita jogo.

Além dos jogos eternos que eu continuo jogando (Animal Crossing, Breath of the Wild), eu dei uma jogada em A Link Between Worlds, meu jogo favorito do 3DS. Eu amo como ele é um jogo perfeito para um portátil, e eu acho que é porque a distância do campo de visão é o ideal para esse jogo? Ele é, teoricamente, um jogo de mundo aberto como Breath of the Wild, e a posição da câmera sobre Link é longe o suficiente para sugerir os seus arredores, mas não o suficiente para te fazer questionar o que tem naquela montanha, como é em Breath of the Wild. Me fez sentir uma certa nostalgia por jogos de portátil, que possuem loops de jogabilidade bem sucintos. Sobre isso, Breath of the Wild é meio que excepcional. Seus loops de jogabilidade são modulares o suficiente para você ter objetivos tanto quando está jogando por 20 minutos quanto 12 horas — você quer terminar um shrine antes de dormir, mas tem toda uma montanha para explorar por horas a fio depois disso.

Também me fez querer que jogos do Switch fossem mais adaptativos quanto à como o jogador joga, em relação à câmera. Acho que eu ia ser legal ver mais do horizonte em um Super Mario em 3D quando eu estou jogando na tela grande, mas mais detalhes dos meus arredores quando eu tô jogando no modo portátil.

Séries: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 5), Community (primeira temporada)

Me sentindo meio culpado de ter gostado bem mais do quinto episódio de Alien: Earth depois das decepções dos três episódios anteriores… justamente porque a série praticamente só fez um filme de Alien redux. Eu ainda acho que a série quer muito fazer com o filme o que a série de Watchmen fez com o quadrinho, tanto que a estrutura é parecida. Estamos no meio da temporada e a série interrompe sua propulsão para voltar atrás, beber explicitamente da fonte original enquanto revela alguns detalhes que ainda não tinha largado pro espectador. Me parece muito This Extraordinary Being, o magnífico sexto episódio que revela as origens do Justiceiro Mascarado.

Continuo revendo Community (tô nostálgico!), e cheguei nos finalmentes da primeira temporada. Como essa série tem coração nesse início, não é a toa que essa primeira temporada garantiu duas renovações diretas. É o melhor momento tanto para Britta quanto para Chang, que continuam bons na segunda temporada mas degringolam para versões ininteligíveis deles mesmos depois disso. Passei pelo episódio do frango frito, inspirado nos filmes do Martin Scorsese, que eu acho que é um dos melhores episódios temáticos que a série entregou justamente pelo carinho que tem tanto pelos seus personagens quanto pela dinâmica entre eles. Esqueço sempre que esse episódio é a origem do Peitos da Annie, o macaco do Troy. Tô soltando uma risadinha só de escrever essa bobagem.

Uma semana sem notificações

Eu passei essa última semana com as notificações do meu celular desativadas e tudo fluiu bem. Bem demais, até: eu não perdi nada importante. Segundo o Tempo de Uso do iPhone, o meu número de ativações do celular também não aumentou com isso. Eu imaginei que aumentaria porque eu ia verificar o WhatsApp ou o iMessage com mais frequência para ver se eu não perdi uma mensagem dos meus amigos e da minha família, mas não aconteceu. Um dos motivos é que durante o trabalho eu uso o WhatsApp no navegador, então não preciso ficar conferindo o celular de tempos em tempos.

Eu me inspirei a fazer isso a partir desse texto de Maxime Vaillancourt, sobre como transformar o celular em uma “ferramenta chata”:

Let’s open up an imaginary toolbox for a moment. Imagine a screwdriver.

A screwdriver is a tool in its purest form. It does not ask for anything, does not require maintenance, and doesn’t distract from the task at hand. It just sits there, patiently waiting to be picked up when needed.

A tool does its job, then gets out of the way.

This is the kind of relationship I want with my smartphone. It should be tool, and nothing else. With that in mind, I set out to turn my smartphone into a tool again. This “tool, not distraction” mentality is useful for all kinds of modern technology, not just smartphones. Cal Newport’s “Digital Minimalism” covers this idea pretty well too (view my reading notes).

A primeira dica que Vaillancourt oferece é desativar as notificações, e é algo muito eficaz. A gente é bombardeado por interrupções do celular para chamar a nossa atenção. Eu sempre fui muito atencioso quanto a quais notificações eu ativo — apps como iFood, Uber, Moovit nunca tiveram notificações ativadas no meu celular, por exemplo — mas mesmo assim o número de interrupções é grande.

O único aplicativo que eu senti falta das notificações foi o Lembretes. Eu uso bastante ele já faz alguns anos pra organizar as tarefas da minha rotina e, embora eu lembre das minhas tarefas, eu gosto da pequena dose de dopamina de dever concluído que é em marcar as notificações como concluídas. No fim das contas, o lembretes e o calendário são os únicos aplicativos que eu reativei as notificações hoje (o app Tempo tem a opção de enviar notificações críticas, o que eu mantenho ativado porque eu vivo em Porto Alegre, afinal de contas).

Vaillancourt sugere ativar um filtro de escalas de cinza no celular, algo que eu já uso, e a desinstalação de apps desnecessários. O filtro de escalas de cinza é algo bem profundo que eu acho que muita gente não adotaria, mas a dica de desinstalar apps desnecessários é ótima. O iPhone tem um auto-desinstalador de apps pouco usados, mas eu não gosto dessa abordagem. Ele costuma desinstalar apps que a gente usa com pouquíssima frequência, e no meu caso são apps como o do plano de saúde, ou do FGTS. O problema é que, quando eu preciso desses apps, eu preciso deles na hora, e dentro de um hospital o sinal de internet pode ser fraco (já aconteceu!). Minha dica é sempre dar uma conferida na lista de apps do seu celular e ser bem honesto consigo mesmo. Eu tô sempre apagando um ou outro app que não faz mais sentido ter. É incrível como nossa rotina digital muda bastante.

Esconder esses apps de pouco uso é bem eficaz também. Desde que o iOS implementou a “biblioteca”, movendo todos os apps pra uma lista categorizada e liberando sua tela de início para você definir quais apps e widgets você quer ver, eu mantenho uns oito apps no máximo. Atualmente são esses:

  • How We Feel
  • Gentler Streak
  • Fitness
  • Diário
  • Babbel
  • NetNewsWire
  • GoodLinks
  • Música

Outros apps aparecem como widgets rotativos — Tempo, Lembretes, Calendário, Mail por exemplo — porque geralmente só dar uma olhada na informação mais importante deles é o suficiente.

Essas mudanças me fizeram gostar mais do meu celular nessa última semana. Prestar atenção em como ele funciona pra mim é importante, e me ajuda a definir uns fluxos com o Atalhos, por exemplo. O celular nunca vai ser tão versátil quanto um computador, mas eu acho que boa parte do meu carinho pelo computador vem da atenção que eu dou a como ele funciona, como ele está organizado, etc. O celular tenta ser opinativo demais nesse sentido. Ele prefere que eu me adapte a ele, e não o contrário. Com um pouco de atenção e dedicação, eu acho que tô chegando num bom meio termo.

Minha dieta cultural na última semana #4

Hoje tá um dia lindo e a temperatura está gostosa. 21°C e ensolarado, com uma brisa leve e gostosa. Vou passar a tarde na praça lendo com o Tobias… mas agora pela manhã, eu tô fazendo feijão. Ontem saí de um dia bem bomba porrada e tiro do trabalho e desci aqui no bar do lado de casa pra tomar uma cerveja com o Erê e me senti bem feliz por ser brasileiro. Sensação boa, essa.

Em outras realizações sobre ser brasileiro, eu decidi que Vale Tudo vai ser a última novela que eu vou acompanhar. Vale Tudo não é tão boa assim (é mais divertido assistir pra falar mal com os amigos) e gasto um tempinho pós-trabalho que eu queria gastar fazendo outras coisas. Como Vale Tudo deve acabar em setembro, e setembro tá logo ali, logo mais vou ter uma mudança na rotina. Vamos ver como vai mudar minha dieta cultural semanal. Vou avisando por aqui.

Filme: Wanda (1970).

Wanda é o único filme dirigido por Barbara Lorden, e que pecado isso, porque Wanda é magnífico. Eu descrevi pro Erê como se John Cassavetes tivesse dirigido o Acossado de Jean-Luc Godard, mas isso não faz justiça ao trabalho de Lorden na direção e na atuação. É justamente na confusão entre as duas coisas que o filme brilha: direção e atuação estão tão intrinsicamente ligadas nesse filme que parece que Lorden controla a câmera com seu olhar, de tanto que a imagem absorve seu estado de espírito em cena. É um filme tão perdido quanto sua personagem principal, que com sua falta de rumo acaba se relacionando com um assaltante e fugindo com ele. Mas Wanda não tem uma “trama” em si. Ela segue acontecimentos que em outros filmes talvez fossem becos sem saída. Mas aqui tudo revela algo sobre Wanda, mesmo que nem ela saiba o que é.

Jogo: The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D (Nintendo 3DS).

Comecei a jogar a versão para o Nintendo 3DS de Ocarina of Time, que eu considero a melhor versão do jogo. Eu tô bem no início — eu acabei de encontrar a Zelda e logo mais vou para Kakariko Village antes de seguir para a vila dos Gorons.

Sempre me esqueço como esse jogo é triste. Sua primeira missão acaba com a morte do seu mentor, e tem uma melancolia já na tela de start que define o tom do jogo todo, mesmo quando ele é bobo (Gorons!). Eu jogo ele no meu New 2DS, que eu particularmente acho o melhor videogame que a Nintendo já fez, e embora o jogo ainda tenha os visuais do Nintendo 64, eu acho ele lindo. Seu trabalho de animação é fantástico, e seu uso esparso das cores é muito inteligente (mesmo que tenha sido uma limitação de hardware). Eu geralmente empaco no reino dos Zoras, vou ver se dessa vez eu avanço mais.

Série: Alien: Earth (primeira temporada, episódio 4).

O episódio dessa semana anda mais com a narrativa, mas eu ainda acho todo o uso da história de Peter Pan aqui meio cansativa. Não consigo parar de comparar com a série de Watchmen que a HBO lançou há uns anos e que usa uma paródia de American Horror Story para pontuar a série também. Mas lá era algo muito mais pontual. Em Alien: Earth a série para pra alinhar a analogia com os personagens o tempo todo. Pelo menos um Xenomorfo nasceu no fim desse episódio, o que é sempre um bom sinal. Logo mais começa o carnaval.

Livro: Uma Visão Pálida das Colinas (de Kazuo Ishiguro).

Ok. Eu cheguei na parte que Ishiguro decide tirar seu chão. Eu tô nos finalmentes do livro. Pelo que diz o progresso no ebook, 68%, mas a progressão é muito rápida, acho que acabo ele esse fim de semana. É incrível como Ishiguro torna um livro bastante interno em um virador de página com muita facilidade. Acho que semana que vem já vou ter mais ideia de onde esse íntimo todo vai dar. Por mais que o livro esteja desabrochando agora, eu não tenho ideia de onde ele quer chegar (e que sentimento legal esse).

Vivi: cinco anos com, seis anos sem

Hoje completam seis anos da morte da Vivi. A partir de hoje, o tempo que eu sinto saudades da Vivi é maior do que o tempo que eu tive perto dela. Foi a primeira coisa que eu pensei quando acordei.

A chegada da Vivi na nossa casa começou com tristeza. Por semanas, ela viveu na frente do nosso pátio, embaixo de um caminhão estacionado na frente da casa de um vizinho. Eu lembro de ter ido lá mais de uma vez dar comida pra ela. Um dia, nós demos comida para ela dentro do nosso pátio, e fechamos o portão. Naquela noite, Vivi conseguiu furar a cerca e fugir pro pátio do vizinho, onde os cachorros dele a atacaram, quebrando sua coluna. Eu lembro de ouvir um barulho de briga durante a noite, mas não juntei os pontos. Tem sempre alguma intriga canina na vizinhança.

Vivi ficou em um dos quartos da casa, onde bate sol e é bem iluminado, e minha mãe a ajudou a se apoiar nas patas dianteiras nos dias seguintes. Ela reaprenderia a caminhar em algumas semanas, e um vizinho nosso iria lá em casa com uma cadeirinha de rodas feita de canos de PVC. Foi durante esses dias, com a Vivi ainda no quarto, que ela ganhou o nome. Minha mãe pensou em Vitória. Virou Vivi.

Eu lembro muito da Vivi desde que ela morreu. Eu já falei sobre esse dia aqui. Dói demais pensar nele, e no meu envolvimento naquele dia. Nada me tira da cabeça que a roupa que eu coloquei nela naquela noite, alguns dias depois de ela ter feito uma cirurgia, estava apertada demais. Pra mim, desde então, eu matei a Vivi.

Mas Vivi viveu uma vida inteirinha. Quando ela aprontava, virava Viviane. Ela fazia uma expressão afrontosa quando a gente xingava ela. Eu acompanhava ela no banheiro antes de dormir (desde o acidente, como eu chamei aquela noite, ela não conseguia mais se segurar). Durante aqueles anos, eu dormi com o colchão no chão. Eu podia colocar a mão dentro do berço dela até ouvir ela roncar (e, leitores, ela roncava). Por muitos anos depois dela, meu colchão continuou no chão.

Eu gosto de lembrar do meu último ano da faculdade quando eu lembro da Vivi. Eu tinha aulas presenciais só uma vez por semana, e nos outros dias eu trabalhava e escrevia o trabalho de conclusão, o que eu tentava deixar para a manhã. Durante as tardes, eu e minha mãe sentávamos na sala com a Vivi e assistíamos séries e filmes. Foi quando a gente maratonou The Wire e Hannibal, acompanhamos a última temporada de The Leftovers ou passamos uma tarde inteirinha assistindo The Keepers. Um de nós sempre sentava no chão, o braço dentro do bercinho da Vivi enquanto ela tirava a soneca da tarde.

Nos dois anos seguintes, quando eu voltei a trabalhar como desenvolvedor, eu usei o quarto vago em que Vivi ficou até se recuperar como um escritório. Durante horas, Vivi ficava lá, deitada no sofá por um tempo, depois apoiada no meu pé. As vezes ela enchia o saco de me esperar e ia para a rua sozinha, na cadeirinha dela, para brigar com os cachorros do vizinho. Ela nunca perdeu a coragem.

Nos últimos meses, quando sua saúde foi piorando, eu gostava de passar os fins de tarde com ela explorando o pátio. Eu saía pouco do quarto naquela época, mas era ela quem me levava. Todos os dias. Eu amei ela tanto.

Eu sonhei com a Vivi há uns dias. Eu sonhei que eu chegava na casa dos meus pais em um dia de sol. Acho que era na época que eu ainda trabalhava no escritório, porque eu chegava de carro com meu pai. Minha mãe me deu oi e só me disse “ela tá lá embaixo”. Eu sabia instintivamente quem era. Eu desci as escadas e, embaixo da laranjeira, estava a Vivi, a cadeirinha de um lado, Mel de outro. Eu sentei perto dela na grama e lembrei que ela tinha morrido, e percebi que aquilo era um sonho. Eu acordei e, pela primeira vez em muitos, muitos anos, eu lembrei de como foi viver com a Vivi, ao invés de lembrar de como ela morreu.