É a primeira vez que eu assisto a versão de cinema de Betty Blue. Eu sempre assisti a versão do diretor, e tinha um preconceito com a versão de cinema porque o que eu mais gosto nesse filme é a forma como ele espaça o tempo — parece muito que a gente acompanha Betty e Zorg nos meses (ou anos?) em que eles estão juntos. É muito emocionante, no final, quando Zorg encontra a foto que Betty tirou deles no início do filme. Sempre me pega muito.

Bem, erro meu. Eu acho que a versão original do cinema é ainda mais eficaz. Essa versão de Betty Blue ainda tem muitas esquinas pra se perder, momentos da vida a dois de Betty e Zorg que o filme passa magicamente tempo demais, sem que isso seja um problema. Eles tornam a vida do casal mais específica e mais tangível do outro lado da tela. Quase que dá pra sentir o calor do verão naquelas cabanas, e o vento frio do inverno na casa em que o relacionamento deles acaba de forma trágica.

Eu tenho a impressão que a versão do diretor tem mais dessas “etapas” do relacionamento deles, mas eu não consigo me lembrar exatamente de quais (o que eu acho que é um ponto a favor desse corte original), e se perde na repetição. A versão estendida, inclusive, parece descaracterizar mais Betty, porque tudo o que o corte adiciona é em relação a Zorg. A dinâmica entre os dois é bem melhor balanceada aqui, o que realça mais as frustrações de Betty sobre o comportamento do namorado, e também toda a força da natureza que ela têm para empurrar a vida que eles têm para outros caminhos, possivelmente melhores.

É bem mais engraçado, também. Eu lembro que o corte estendido é ainda mais triste — Zorg é mais pau no cu com mais tempo de tela —, já aqui o filme ainda é bem humorado até o último ato, em que a tragédia assola os personagens.

De resto, esse filme sempre foi muito lindo. É um filme dessas gerações perdidas que aparecem de tempos em tempos, com horizontes gigantes e vazios de esperança. A melancolia parece ecoar nesse horizonte, e quando acaba realmente parece que uma vida inteira passou voando, como a própria vida de Betty. Lindo demais.