É a segunda vez que revejo Daguerreótipos no cinema. A primeira vez foi na Cinemateca Capitólio. Dessa, foi na Cinemateca Paulo Amorim — meu cinema favorito da cidade, que fica pertinho aqui de casa. A sessão não tinha tanta gente, mas todo mundo parecia apaixonado pelos sujeitos que Varda observava.
Eu experimentei ir pra Cinemateca sem o celular, porque eu já sabia a experiência que o filme ia provocar em mim, e foi certeiro. Foi muito bom poder ir e voltar da CCMQ tendo que olhar pros arredores, considerar as pessoas que estão junto, sem poder recorrer aos problemas de longe pra me distrair. Eu percebi o quanto eu me sinto em casa onde eu moro hoje — como me sinto protegido por acenar pro Itamar, o dono do bar ao lado, toda noite ao voltar pra casa. Como eu me sinto próximo das pessoas que me ajudam a viver minha rotina, como as mulheres da lavanderia; a bilheteira da CCMQ; o dono do café que fica do lado da entrada da sala; a dona da vendinha que tem aqui perto de casa.
Daguerreótipos me lembra que todo o mundo é uma pessoa inteira, com seus próprios sonhos, suas próprias rotinas e suas próprias memórias. Ele me lembra também que, quando olhamos ao redor e vemos as rotinas das quais a gente também faz parte, o mundo fica mais interessante, fica mais bonito, e fica menos difícil de viver, e de conviver.
Logo mais eu faço todo o trajeto de novo — pego a Duque, desço a General Câmara e sigo pela Andradas. Vou rever os rostos dos meus vizinhos e as fachadas das suas casas e dos seus negócios. Vou dar um alô pro Itamar enquanto abro o portão de casa, e ele vai saber que eu cheguei bem.