
Uma parte de mim tava genuinamente curioso pra saber como a notícia ia chegar. Eu estaria lá pra presenciar — como estive com a Delinha, a Duquesa, e a Vivi —, ou eu saberia por telefone, como foi com o Ió? Quem me daria a notícia, meus pais ou o veterinário? Seria num dia de sol, ou num dia de chuva? Seria triste e violento, ou silencioso e em paz?
No fim, foi por telefone. Eu recebi a notícia duas vezes. Na primeira, foi minha irmã, me avisando que uma notícia triste estava para chegar. Um tempo depois, meu pai me ligou. Lá no fundo, eu já sabia. Mas a delicadeza do meu pai com a notícia me fez chorar. O Balu morreu hoje de manhã, deitadinho na caminha dele, depois de meu pai colocar ele ali para buscar uma encomenda — os soros que eu havia comprado pra ajudar na alimentação, que estava cada vez mais difícil. Quando meu pai voltou, o Balu estava na mesma posição, sem ter se aninhado como ele costumava se aninhar, com as patas embaixo do corpo. Ele tinha quase vinte anos.
Eu me perguntava como a notícia ia vir porque, nos últimos anos, o Balu nos deu vários sustos. Em 2019, ele perdeu todos os dentes. Alguns anos depois, ele iria desenvolver uma alergia à proteína e perderia todo o pelo do corpo, e sua pele ia ficar quase em carne viva. Ano passado, ele desenvolveria uma síndrome vestibular. Eu me preparava emocionalmente para me despedir do Balu em todas essas situações. Mas, algumas semanas depois de cada um desses problemas aparecerem, ele reagia. Se acostumou a comer papinhas, e depois voltou a comer sólidos; a pele melhorou, e seu pelo voltou a crescer, mais bonitinho do que nunca; em questão de dois dias tomando a medicação, ele voltou a ficar em pé e, depois, a caminhar.
Nesse último ano, embora ele tenha perdido a visão, sua rotina era basicamente a mesma — sentia muito sono, dormia bastante, comia bastante, pedia pra fazer xixi, e dormia mais um pouco. Ela só acontecia mais devagar, e mais silenciosa. O Balu ficou cego e, com o tempo, foi parando de latir também. Ele só nos reconhecia pelos nossos sons e pelo nosso tato. Até o final, ele se aninhou em mim do mesmo jeito que ele fez desde filhote, embrulhadinho no meu braço, com a cabeça apoiada.
Não sei mais o que escrever sobre o Balu. Eu escrevi e apaguei vários parágrafos já, mas a verdade é que escrever sobre a vida do Balu seria basicamente escrever sobre a minha — sobre o fim da minha infância, toda a minha adolescência, e o início da minha vida adulta. Balu foi uma constante na minha vida por muito tempo, e eu ainda não sei o que sua partida vai tirar de mim, e o que sua ausência vai trazer. Uma parte de mim está curioso pra saber. A maior parte, porém, tá com medo.
Domingo, quando vi Balu pela última vez, eu tive um daqueles momentos de paz que as vezes nos acomete. Eu sentei na mesa e olhei para o cantinho em que ele ficava em casa, perto da porta de entrada. Mesmo cego, ele estava deitado com a cabeça virada para a rua, o sol da tarde no rosto. Ele respirava fraquinho, mas foi um momento em que meu cérebro só quis aproveitar o presente, sem nenhuma outra preocupação ao meu redor. Por aqueles instantes em que eu vi o Balu sendo banhado pelo sol, olhando para algo, talvez para o nada, eu só pensei nele. Na vida imensa que ele teve — os lugares que ele conheceu, as pessoas que cruzaram por ele, tudo o que mudou ao redor dele —, mas também naquele momentinho em que ele aproveitava o sol, encolhido na sua almofada. Tudo o que eu mais amei nele continuava ali: a personalidade forte que o fez viver a vida do jeito que ele queria, não importa o que nós tentássemos fazer; a força de ter vivido quase duas décadas com os mais diversos obstáculos; e a doçura com que ele se aninhava no meu braço, ou que se aprumava no sol.
Balu domou o próprio tempo. Até o final, esse cachorrinho nunca deixou de me impressionar.
