
Delinha morreu hoje de manhã. Eu saí cedo aqui de casa e fui pra casa dos meus pais. Eu já sabia o que nos esperava hoje. Delinha desenvolveu um câncer nos últimos anos, mas foi nesses últimos dois meses que ele se propagou violentamente no corpo dela. Sem comer pelas últimas semanas, e sem conseguir tomar água já há uns dias. Hoje de manhã, eu e meus pais nos despedimos dela.
Eu não acredito que o sofrimento e a morte dos cachorros com quem cresci e cuidei me ensinam algo. Delinha viveu bem por quase todos os seus 18 anos, mas foi difícil ver sua força se esvair desse jeito, rápido e brutal. Delinha sempre foi uma cachorra muito delicada, não em questão de saúde (ela sempre foi muito forte, e a única complicação que ela já teve foi, justamente, o câncer), com seu olhar manso, seu latido baixo e sua passada silenciosa.
Quando minha irmã encontrou a Delinha, enrolada em uma sacola no meio de uma rua perto de casa, ela tinha dias de vida. Nós dávamos leite pra ela por bastante tempo, porque ela nunca mamou na própria mãe. Delinha era uma filhote feia, com o pelo duro e com cor amarelo-queimado. Conforme crescia, Delinha ficava mais e mais bonita. Seu pelo se alongou, e ficou dourado.

O que nunca mudou na Delinha foi seu olhar. Era meigo, com seus olhos com uma cor castanha, e trazia com ela sua calma e seu silêncio. Delinha sempre foi bastante quieta e solitária. Nós sempre tivemos muitos cachorros e a política interna deles muda de tempos em tempos. Delinha sempre foi alheia a isso. A gente sempre achou ela especial, não só porque ela era belíssima, mas porque sua quietude nos trazia paz em uma casa onde a matilha costuma ser bagunceira. Ela gostava de dormir sozinha, embaixo do carro, depois no banheiro do andar de baixo. Lá ela ficava, e nós precisávamos visita-la para fazer carinho e conversar.
Quando Delinha saía dos seus esconderijos e nos agraciava com sua presença, era um momento especial. Ela “sorria” (algo que ela aprendeu a fazer em algum momento), e pedia um carinho. Por um tempo, ela tinha inclusive uma cadeira pra ela, e meus pais tomavam chimarrão ao seu lado. Ela sempre pareceu uma rainha — era um privilégio quando ela decidia nos fazer companhia, não porque era raro, mas porque sua companhia trazia sua calma, sua doçura.
Delinha foi a última integrante da segunda geração de cachorros que chegou em nossa casa. Quando ela chegou, em 2006, eu tinha doze anos, nas férias entre a quinta e a sexta série. Ela fazia parte de uma turma com outros três cachorros: o Pepi, a Cida e o Luva. Ela era a mais nova dos quatro, e foi a que viveu a vida mais longa.
Foi uma dádiva crescer com esse grupo. Eles foram bons companheiros para a minha infância, brincalhões e sábios como só os cachorros podem ser para uma criança. Mas foi a Delinha, dos quatro, que me viu crescer. Ela me acompanhou no ensino médio e na faculdade, me recebia quando eu chegava em casa depois do trabalho e, quando saí de casa, foi sempre meu primeiro abraço ao visitar meus pais. Mesmo quando ficava mais de mês sem visitá-los, ela sempre me olhava com aquele mesmo olhar calmo, doce. “Ah, como é bom ver você” ela parecia dizer, entre cochilos.
Ela não perdeu seu olhar. Quando me despedi dela, na maca do veterinário enquanto ela era anestesiada, ela ainda me olhou daquela forma. Por um momento, seu olhar teve medo. Eu finalmente pude retribuir pra ela a calma e a sabedoria que ela sempre me proporcionou nessas quase duas décadas juntos. Eu segurei sua patinha, fiz um cafuné e esperei ela adormecer. “Ela descansou”, eu fiquei pensando, mas uma parte egoísta de mim pensou “esse foi o último olhar dela pra mim“.
Egoísta, mas sincero. Vou sentir falta dessa companhia, desse olhar. É o tamanho da falta que essa doçura, esse carinho, vão deixar em mim. Foram 18 anos maravilhosos ao lado dela. Um privilégio que foi, crescer ao lado de uma verdadeira rainha.