Já faz um tempo que eu me planejo pra escrever sobre a minha casa. Ela tem sido um “projeto de vida” imenso para mim, e o meu foco principal nesses últimos três anos. Minha casa revelou tanto de mim para mim mesmo, e me confortou em tantos momentos (em tão pouco tempo!), e foi o lugar que eu mais encontrei alegria em meus dias.

Eu tenho pensado em escrever sobre tudo isso por um tempo já. E daí a enchente veio.

Minha casa não foi afetada pela tragédia. Eu estou a salvo nela de novo. Mas, por quinze dias, eu tive que deixá-la. Eu passei duas semanas longe dela (não é muito tempo!), mas o alívio de vê-la de novo só assentou em mim ao ver as fotos da vida que eu construí nela em suas paredes. Eu estava em casa.

Essa é uma história feliz em meio a muitas histórias tristes, terríveis, de pessoas perdendo suas casa e suas vidas. Algumas estavam reconstruindo-as desde a última enchente, e a água veio e levou tudo de novo. Eu vejo as pessoas sendo salvas ou encontradas nas ruínas de suas próprias casas. Eu vejo cachorros e gatos e galinhas e porcos e cavalos lutando para sobreviver. Alguns são resgatados. Outros não conseguem encontrar abrigo a tempo. É tudo tào triste, é tudo tão trágico. Tudo o que eu faço para ajudar não é muito. É uma tragédia que me lembra sempre da pequenez da minha existência quando estou sozinho. Um pouco de doações aqui e ali parecem pequenas gotas em um balde vazio. Eu posso passear com os cachorros abrigados, doar algum dinheiro e comprar algumas coisas para os abrigos. E então eu volto para casa, e o som da chuva — que já foi meu som favorito para ir para a cama — assombra minha noite.

Eu e alguns amigos deixamos nossas casas bem rápido. Eu já estava sem luz e sem água por três dias quando nós decidimos deixar Porto Alegre. Meu prédio já estava vazio. Todos deixaram e dormir em um prédio vazio em um bairro alagado ficou preocupante. Eu moro no centro, o que me fez no passado desejar que o bar ao lado da minha casa fechasse mais cedo, ou que as pessoas falassem mais baixo. Mas depois de dias (e, agora, semanas) dormindo no silêncio completo de um bairro esvaziado, eu sinto falta do barulho reconfortante de viver ao redor das pessoas.

Eu lembro que eu coloquei minhas plantas na minha sacada, para que a água da chuva pudesse molhá-las enquanto eu estava fora. Eu fechei minhas janelas, e deixei minha geladeira (já esvaziada) aberta. E então eu fui para a casa de minha amiga, onde eu dormi na sala para que pudéssemos sair na primeira hora da manhã.

Eu viajo nas minhas férias, e vou visitar meus pais nos fins de semana. Deixar minha casa nunca foi um drama antes, mas era um sentimento diferente dessa vez. Já dava para perceber como a cidade que eu estava deixando não era a mesma na qual eu vivia. A escuridão e o silêncio pairavam sobre ela, cercados pela água e pelo lodo.

É devastador. Pelos próximos dias, nós assistíamos as notícias e a destruição total de tudo ao redor de nossas casas — bairros alagados em menos de uma hora, cidades inteiras destruídas, algumas pela terceira vez em menos de um ano. Pessoas perdidas, pilhas de corpos de animais aparecendo.

Eu sou muito sortudo de ter uma casa para voltar enquanto abrigos estão cheios de pessoas que não sabem se suas casas ainda existem, ou já sabem que precisarão começar de novo, de novo. Quando eu voltei, eu liguei as luzes e o barulho da minha casa, silenciado por semanas, começou de novo. Eu coloquei minhas plantas de volta em seus lugares, lavei a louça que estava acumulada pela falta d’água, e sentei na minha mesa e olhei para as fotos dos momentos vividos nesse mesmo lugar. As memórias que essa casa me deu. E então eu chorei.

Eu tenho chorado aqui e ali desde então, pelas menores e maiores das razões. Pelas histórias que eu ouço, de salvamentos e de perdas. E por detalhes que eu amo na minha casa.

Pelos últimos três anos, eu venho construído ela devagar, mas com carinho. Em troca, ela me revela coisas sobre mim — como eu organizo as coisas, ou o que eu acho bonito ou interessante. E, lentamente, essa casa me dá conforto, e me dá meu reflexo em suas paredes e nas coisas que habitam ela. E então me dá memórias de como era antes, e o que mudou para me fazer querer mudá-la. Ela é, literalmente, tudo pra mim.

E eu não consigo imaginar a dor que seria de perdê-la, mas eu vejo essa dor em todo o lugar, o tempo todo, ao redor. Ela é silenciosa e escura. Ela cheira a lodo e a animais mortos. Eu a vejo quando atravesso as ruas do centro e o barulho da água aparece. Ela é a fome, o frio e o medo. E ela tá em todo o lugar ultimamente.