Meus amigos se despediram de mim na madrugada do dia 29 de dezembro. Eles iam para a casa de uma conhecida nossa. Eu ia ficar mais um tempo na festa em que a gente tinha se encontrado e então eu iria a pé até a rodoviária, para pegar um ônibus até a casa dos meus pais, onde eu ia passar a virada de ano novo. Eu era uma pessoa completamente diferente da que eu sou agora quando eu vi eles entrarem no carro.

Eu não costumo falar sobre essa noite com as pessoas. Mesmo com os meus amigos mais próximos, eu sempre deixei esse assunto quieto. Eles eventualmente me perguntam sobre o que aconteceu, como eu estou me sentindo, e etc. Eu nunca me senti muito seguro pra falar daquela noite até hoje.

Algum tempo depois, conversando com o Erê, eu comentei com ele que o impeachment da Dilma parecia ter dado a partida na minha depressão, que foi e veio desde então. O Erê, bom amigo como sempre foi, não só concordou com a hipótese como contextualizou ela. “Um mal estar se instaurou no ar desde aquele momento”, ele me explicou. É verdade. O mal estar já existia naquela noite, ele estava no ar.

O mal estar ainda existe. Mas ontem a noite, pela primeira vez, parece que uma brisa conseguiu cortá-lo. Há um fio de esperança, de que a maré está mudando talvez o futuro seja um pouco mais seguro, que a felicidade e o amor reapareçam no horizonte. E esse fiozinho de esperança me trouxe a coragem de poder falar sobre como foi viver esses últimos anos morrendo de medo de sentir dor de novo.

Eu fiz aquele percurso a pé da Cidade Baixa até a rodoviária uma penca de vezes antes, então eu achava que eu sabia o que eu estava fazendo. Saindo da João Alfredo, e pegando a República, eu iria até a Lima e Silva. Atravessaria a Perimetral e dali pegaria a André da Rocha, subiria a escadaria que leva para a Duque e seguiria no entorno da Santa Casa. Na Santa Casa, eu esperaria até o dia começar a raiar (eu geralmente fazia esse percurso nas últimas horas da noite), e então eu poderia seguir até a Rodoviária.

Meu maior medo, desde que eu me conheço, é de sentir dor. Dor física. De cortar a ponta do dedo fora quando tá picando a cebola; de escorregar enquanto atravessa a rua e ter as pernas atropeladas. Não a morte em si, mas aquela dor que machuca. Naquela noite, eu senti pela primeira vez, de verdade, essa dor. Ela é cruel, porque não tem como escapar dela; e ela se anuncia: eu vi ela atravessando a rua de noite. Eu sequer tinha saído da João Alfredo, quando eu ouvi ela me xingando e eu senti ela me segurando. É estranho tu saber que tu vai sentir dor, na verdade. Eu nunca tinha pensado que ia perceber isso, mas eu fiquei com vergonha quando eu percebi.

Desde então, eu sempre tentei relevar a memória dessa dor, porque muita coisa aconteceu. A baderna de 2017 se tornou da desesperança de 2018, e no pavor de 2019, na peste de 2020 e no pós-apocalipse de 2021. O medo de 2022 era grande demais. Até hoje de noite, quando a brisa de esperança se instaurou no ar. Pela primeira vez nesses anos todos, ficou um pouquinho mais leve de respirar.

Quando a névoa que o medo causa se dissipa, você vê muitas coisas pela primeira vez desde que ele surgiu. Muitas dessas coisas estão muito diferentes do que eram quando você deixou de conseguir enxergar, mesmo sabendo que elas ainda estavam ali.

Quando eu me despedi dos meus amigos naquela noite, eu era uma pessoa bastante orgulhosa da minha promessa de vida. Eu sabia me virar bem. Eu comecei a trabalhar cedo e já tinha uma carreira em uma área que eu entendia. Eu estava estudando sobre algo que eu adorava. E eu tinha uma boa habilidade de me cercar de pessoas que me amavam. Eu gostava de ficar sozinho e não tinha medo dos meus pensamentos. Esse Arthur confiante, que cruzava a cidade de noite sem medo, morreu naquela noite.

Amigos têm uma magia única. Quando a gente vê um amigo, eles nos mostram que somos, para eles, as pessoas que gostaríamos de ser. Não falta nada, nada está fora do lugar. E foram eles, nesses últimos anos, que me ajudaram a retomar o fôlego nessa maré de mal estar. Foram eles que me ajudaram nesses últimos anos. A primeira pessoa que eu vi depois de sentir dor foi o Erê. Ele me encontrou sentado na rodoviária. Eu nunca vou me esquecer de como ele me abraçou naquela noite, me segurando como se ele tentasse me impedir que eu me desmontasse. Ele não me perguntou nada, ele não me falou nada. Ele só me abraçou.

Eu lembro desse abraço do Erê, de uma tarde trabalhando com a Aldry, de uma ida ao cinema com o Gui, de uma ligação demorada com a Manu, uma música compartilhada com a Thai, uma massa preparada pelo Zé, uma caminhada com a Bruna, uma partida de golfe com o Victor, ou um vídeo no YouTube que só o Leo pode encontrar pra mim.

Esses momentos e essas memórias me seguraram nesses últimos anos. Elas me confortaram quando tudo parecia estar acabando, quando a memória ou as cicatrizes da dor pareciam mais fortes do que eu. Mas é um peso grande demais pra deixar sobre os ombros deles. Essa brisa de esperança, de alívio, que começou a soprar na noite de hoje, talvez alivie o peso deles também.

O mal estar continua, talvez ele aumente nesses próximos dois meses. Ele pode continuar nos próximos anos, mas fica um pouquinho menos sozinho encarar ele a partir de agora. Esse pequeno alívio já me deu coragem pra finalmente tirar aquela noite da minha cabeça e colocar em um texto, e deixar essa memória nele. Que ela, assim como esse mal estar que se instaurou nesse país, comece finalmente a ficar para trás.