Eu já sabia. Eu soube quando ele chegou na minha casa e me beijou, e eu senti o cheiro de um creme de barbear que ele não usa. No modo quase desesperado que ele quis me agradar, algo que ele não faz porque sabe que não precisa fazer. Eu só confirmei quando vi a toalha pendurada na maçaneta do quarto dele, uma mancha escura no meio dela. Foi com ela que ele secou o outro, minutos antes de ir jantar comigo na minha casa. Agora, ela tá ali, olhando pra mim.
Eu vou lembrar desse detalhe mais do que eu vou lembrar do que eu senti quando eu vi ela — a tristeza profunda de não ser com quem tu queria passar aquele momento que ele decidiu passar com algum outro cara. Essa tristeza vai passar com os dias, e talvez na semana que vem eu não vou lembrar mais dela. O meu carinho vai ficar, o carinho pelos momentos que ele quer passar comigo. As manhãs de meio de semana, as tardes de fim de semana. Ele prefere passar algumas horas com outros, as vezes até dormir com eles. Mas ele me procura para caminharmos numa tarde de domingo, pra fazer uma janta depois do trabalho.
Eu vou lembrar da toalha, assim como eu vou lembrar dos ladrilhos verdes que cobrem a parede do prédio vizinho, onde a luz do quarto em que eu fico deitado com ele rebate suavemente conforme a noite chega. Eu vou lembrar da textura da pele nas costas dele, onde eu sei posicionar cada erupção e cada covinha, em que eu passo meus dedos bem suavemente quando ele dorme com a cabeça apoiada nos meus braços. Eu vou lembrar do cheiro do caldo de moranga que ele prepara antes da janta. Ou da forma como ele calcula a mesma quantidade de vinho em cada uma das taças. Ou de como ele olha pra mim quando eu chego com a xícara de café pra ele na cama. Ele nunca pega ela das minhas mãos. Ele espera eu sentar ao lado dele com a minha para então tomar um gole junto comigo.
Eu não sei quanto tempo eu vou conseguir aguentar. Por um lado, eu sou apaixonado por ele e por esses momentos cheios desses pequenos detalhes. Por outro, porém, eu sinto que a curiosidade dele em se encontrar com outras pessoas e o perigo de ser descoberto por alguém (dessa vez, por mim) é algo muito mais interessante para ele do que qualquer carinho ou cuidado ou afeto que a gente possa compartilhar. Quando a gente tá junto, e esses pequenos detalhes enchem meu coração e a minha cabeça, parece que eu vou aguentar sempre. Quando ele desaparece, e volta horas depois com algum imprevisto, com algum cheiro diferente, com alguma desconfiança, meu coração se parte. “Ah, não era comigo que ele queria ficar agora…”, eu fico pensando.
E então esse pensamento vai desaparecendo aos poucos, conforme os dias e o nosso convívio o afogam em outros pequenos momentos. Eu acho que vou esquecer desse conforto do convívio e do carinho, também. Eu vou ficar com a memória da toalha, da pele, dos ladrilhos, do balanço dos dedos dele no controle remoto. Coisas que eu posso transformar em histórias depois, e tirar de dentro de mim. Que é algo que, eu tive que ouvir do meu terapeuta, é o peso de ser um escritor. Eu vou criar todas essas possibilidades e todas essas histórias na minha cabeça, porque ela guarda todos esses pequenos detalhes e os enche de possibilidades. Algumas, é melhor escrever e deixar por aí, do que assombrando os lugares que eu passei e que, daqui um tempo que eu espero que não demore muito, eu não vou estar mais.