Carol (um monstro peludo e gigante) e Max (um garoto de 10 anos) se abraçam em meio a flores laranjas.ALT

Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz.

No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa.

Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”.

Qual é o sentido de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto.

Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve.

Eu defini, há muito tempo, que amizades são as relações mais importantes da minha vida. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas.

Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.