Ilustração por Raul (@raulranma): um elefante está sentadinho, olhando o pôr-do-sol. As nuvens formam "2025"

Há mais de uma década eu faço uma lista dos cinco melhores filmes, jogos, séries, músicas e links que eu descobri no último ano. De 2014 até 2023 elas foram publicadas no Pão com Mortadela; a do ano passado no meu blog pessoal. Pela primeira vez, vou fazer uma listinha aqui no Irrelefante.

Eu vou mudar um pouco como essa lista é pensada esse ano. Ao invés de só considerar lançamentos, a lista desse ano também terá minhas descobertas favoritas. É uma mudança que ajuda a refletir como minha dieta cultural tá mudando com o tempo também: as vezes eu só consigo jogar um jogo anos depois dele ter sido lançado, ou vejo um filme décadas depois, explorando alguma recomendação antiga que recebi de alguém. Principalmente, eu descubro músicas favoritas lançadas antes mesmo de eu nascer, e raramente leio livros lançados no ano atual. Abrindo a lista para descobertas me permite escrever sobre meus livros favoritos do ano, e refletem melhor como eu escuto música ultimamente.

Talvez a mudança seja sentida menos em listas de filmes e séries, por exemplo. Boa parte da minha dieta cultural no cinema e na TV é de lançamentos, mas não se surpreenda se um filme dos anos 1940 ou uma série que você viu há muitos anos começar a aparecer nessas listas com o tempo.

Lembrando: embora o melhor de cada categoria seja destacado, as outras quatro recomendações estão em ordem alfabética.

(Meu muito obrigado ao Raul (@raulranma) pela ilustração no topo desse post. Eu sempre peço as artes de última hora pro Raul e ele sempre arrasa, mesmo no prazo apertado. Ano que vem vou fazer diferente, Raul! Eu juro!)

Eu espero que você goste das sugestões e que essa lista te ajude a descobrir coisas bacanas em 2026. A gente se vê por lá.

Filme: Foi Apenas Um Acidente

Um homem descarrega algo da traseira de um furgão no meio do deserto. Atrás dele tem um buraco, um monte de terra e uma pequena árvore.

(Yek tasadof-e sadeh, 2025). A nova obra-prima de Jafar Panahi, e talvez seu melhor filme para começar com a carreira do diretor até aqui. Um lindo exemplo de como o cinema iraniano emprega uma poesia visual que cinema nenhum do mundo consegue se equiparar, essa pequena história de um grupo de pessoas que acham que encontram seu torturador e discutem o que devem fazer com ele é assombroso — literalmente, seu final me assombra até hoje, por tudo o que ele não mostra e por tudo o que ele indica.

E também:

  • A Hora do Mal (Weapons, 2025). O evento cinematográfico do ano para mim. Uma conquista ousada na direção, Zach Cregger tem o público na palma da mão enquanto navega pela vida de pessoas desesperadas tentando entender o que aconteceu com elas e com as crianças que desapareceram. A virada de faca no estômago no último ato é tão magnífica que quase ofusca as duas horas de perfeição que vieram antes dela.
  • Uma Batalha Após A Outra (One Battle After Another, 2025). Eu não estava esperando um filme tão tópico de Paul Thomas Anderson. Ele entrega um de seus filmes mais ousados, um filme de ação em que o motor é o amor de um pai por uma filha, mas que deixa pelo caminho histórias de revoluções implodidas e arrancadas das mãos das pessoas. É desesperador de assistir, mas tem um fiozinho de esperança tão lindo no final que traz aquele PTA romântico de Trama Fantasma de volta.
  • The Mastermind (2025). Kelly Reichardt observa a pequenez do homem ressentido nesse filme de assalto em que, em um filme mais tradicional, um ex-filho prodígio deveria aprender a lidar com a própria mesquinharia. Não aqui: Reichardt leva o ex-artista, ex-arquiteto, agora-ladrão de Josh O’Connor até às últimas consequências do seu egoísmo, e desfere a ele um último golpe de justiça divina no final.
  • Valor Sentimental (Affeksjonsverdi, 2025). São poucos os filmes que sobrevivem à própria inspiração quando essa inspiração é o drama de Ingmar Bergman mas Joachim Trier consegue ao não confundir inspiração com emulação. Esse não é um filme bergmaniano, mas um filme que, como os de Bergman, se preocupa com as emoções mais ocultas, aquelas que nós fingimos que não sentimos, que escondemos sobre nossos outros sentimentos porque seria doloroso demais mostrar a saudade ao invés da raiva, ou a solidão ao invés do amor. Valor Sentimental é um filme que respira, que vibra, e que sente.

Jogo: Despelote

Captura de tela de “Despelote”: visão em primeira pessoa de uma lata de feijão, e um cachorro olhando para sua lata de feijão com cara de pidão.

(Julián Cordero e Sebastián Valbuena, para PC, Nintendo Switch, PlayStation e Xbox). As vezes, bem raramente, aparece um jogo como Despelote que consegue alcançar o que eu imagino que seja a ambição máxima de um game designer: de permitir que você sinta uma experiência além da sua própria vida através de novos olhos. Em Despelote, é a sensação de orgulho nacional quando a seleção de futebol avança para uma nova etapa na Copa do Mundo. Despelote é todo sobre o amor pelo futebol, pela forma como esse amor move sonhos e cria comunidades. É um jogo que me faz querer estar junto das pessoas, de sentir com elas, de tirar os calçados e sentir a textura do chão. Um dos melhores jogos que eu já joguei.

E também:

  • Blippo+ (Panic para Nintendo Switch, Playdate e PC). Uma das experiências mais mágicas que eu já tive foi ir visitar uns amigos dos meus pais que viviam em outro lugar e, numa noite mal dormida, ficar navegando na TV por canais estranhos, muito longe dos habituais 5, 7, 10, 12 e 14 da TV da minha casa. Blippo+ traduz essa experiência para um jogo, e traz de volta um pouco daquela TV feita na marra, de programas feitos por universidades regionais e colocados na TVE no meio da semana. É tudo tão estranho e tão lindo.
  • Blue Prince (Dogubomb para PlayStation, PC e Xbox). Antes de Despelote tomar o primeiro lugar, Blue Prince foi meu jogo do ano. Um mistério sobre como chegar na última sala de uma mansão com determinadas regras, me lembra muito de um outro jogo que eu amo e que é organizado proceduralmente, Dear Esther. É ótimo se sentir perdido nos corredores de Blue Prince.
  • Metroid Prime 4: Beyond (Retro Games para Nintendo Switch). Insuportável o discurso ao redor do quarto Metroid Prime, mas esse é o legado do primeiro jogo da série, uma perfeição que até hoje pouquíssimos jogos conseguiram alcançar. Beyond não chega nos altos do primeiro Prime, mas é um jogo de ação e exploração como poucos — explorar Viewros através dos olhos de Samus é uma das experiências mais bacanas que eu já tive, e o maior motivo hoje para ter um Nintendo Switch 2. É um jogo belíssimo.
  • To a T (uvula para PlayStation, PC e Xbox). Estranho, no melhor sentido em que um jogo pode ser estranho. To a T é um belíssimo jogo que consegue traduzir para a jogabilidade a sensação de ser estranho em uma situação, de não conseguir fazer do jeito que outras pessoas fazem. Nunca vi um jogo explorar as diferentes capacidades humanas na jogabilidade. Que bom que esse charme de jogo tem um olho apurado pra isso.

Cybercultural: Internet History and Its Impact on Our Culture

(Richard MacManus). Virou leitura obrigatória pra mim: de vez em quando, Richard MacManus publica uma cápsula do tempo para a internet que eu cresci. Ele já escreveu sobre como os blogs apareceram e cresceram. Como o RSS se formou. Como o Last.FM capturou algo quando as pessoas começaram a compartilhar o que ouviam. Ele chegou em 2003 agora, o mesmo ano em que eu comecei a usar o computador sem supervisão dos meus pais. Ele provavelmente não vai escrever sobre o Exchange do The Sims 2, mas acho que logo mais chegam os fóruns. Um momento na internet que eu presenciei, que eu participei e que eu adorei. Será que ele vai falar do Orkut também? Lembra quando a internet nos fascinava ao invés de nos ressentir? Esse espírito ainda existe, Cybercultural está me ajudando a reencontrá-lo.

E também:

  • ** 21 Facts About Throwing Good Parties **” (Uri, Atom Bits). “Festas são um serviço público” é uma constatação que mudou um pouco a forma como eu vejo o porquê de eu gostar de receber meus amigos, de ver eles socializando, de estar feliz em ser uma boa casa para eles. Além de ser um ótimo ensaio sobre como uma festa presta um serviço à sociedade, traz dicas genuinamente boas para tornar as suas melhores (em resumo: faça as pessoas andarem pelo espaço).
  • Notas sobre zumbis (Aline, Le chouchou). Le chouchou é uma pérola. De vez em quando, Aline escreve sobre o ofício de ensinar uma língua nova. As vezes, ela aponta uma curiosidade sobre como a língua francesa evoluiu com o tempo. Nesse, ela observa a figura dos mortos-vivos, e encontra a comunhão que temos em como enxergamos a mortalidade e a saudade. Le chouchou sempre emociona.
  • Ringtones and Customization: Summer Yapfest 2025 (Never Post). Outra cápsula do tempo, esse episodio do Never Post, meu podcast favorito, é sobre como a gente podia personalizar tudo: de capinhas removíveis dos celulares a fundos na página do MySpace. Onde foi essa possibilidade de fazer as nossas coisas serem nossas? Como sempre, Never Post é revelador, divertido e um pouco triste demais. Bem como o fim do ano.
  • ** You’re overspending because you lack values **” (Sherry Ning). Venha para uma análise de como trocamos afeto por consumo. Fique pela resenha belíssima de A Viagem de Chihiro.

Música: “Facing Atlas”

https://bandcamp.com/EmbeddedPlayer/size=medium/bgcol=ffffff/linkcol=0687f5/notracklist=true/transparent=true/track=1964501622/

(Anna von Hausswolff, do álbum ICONOCLASTS). Eu descobri ICONOCLASTS por acaso: lendo alguns comentários no Stereogum, pessoas estavam suplicando para que o autor de um post desse uma ouvida no novo álbum da sueca Anna von Hausswolff. Ainda bem que sou xereta e fui conferir, porque é um álbum transcendental: a música de von Hausswolff é imensa — uma composição de orquestra sinfônica, para traduzir a grandeza e a pequenez de seus pensamentos. A dobradinha “The Beast” e “Facing Atlas”, que abrem o disco, escancaram a metamorfose da grandeza de sensações que parecem que vão nos consumir em sentimentos que precisamos deixar passar.

E também:

  • “Left For Tomorrow” (Perfume Genius, Glory). É estranho como sentimentos e pensamentos podem ficar muito tempo na minha cabeça, sem nunca deixarmos eles respirarem, assumirem um pouco o nosso ponto de vista para que a gente possa sentir e pensar neles. “Left For Tomorrow” é uma música que parece um desses pensamentos: ela não começa e nem termina, é como se a gente só conseguisse apreciar um momento da música do excelente novo álbum do Perfume Genius antes dela voltar para o fundo da mente. Me lembrou de quando eu era pequeno, e eu viajava com meus pais para visitar os parentes e cochilava olhando para a janela, e ia acordando de vez em quando — as vastidões do pampa aparecendo e desaparecendo enquanto eu abria e fechava os olhos. Que música linda.
  • “Love Theme from the Robe” (Yusef Lateef, Eastern Sounds). Eu comecei a ouvir essa música muito antes de eu encontrar ela. A gente tava subindo uma das muitas escadarias de Valparaíso quando eu comecei a ouvir ela saindo de algum lugar. Conforme a gente seguia na rua, eu encontrei: um pequeno antiquário com um senhorzinho sentado numa cadeira de praia no fundo da loja, com o disco de Lateef tocando no vinil. O chiado era a maior parte da música, mas de alguma forma tudo isso parecia perfeito. Eu coloquei muitas vezes ela pra tocar depois desse dia, só pra lembrar desse momento perfeito que eu vivi.
  • _ “Minas Geraes” _ (Milton Nascimento, Geraes). Geraes provavelmente foi minha trilha-sonora do ano. O épico do interior do Brasil que Milton Nascimento fez no fim dos anos 1970 é genial. Sua música final, “Minas Geraes”, é uma música imensa: ela contém uma vida inteira, de um país inteiro. Ela usa toda a voz de Milton, para cantar todas as canções possíveis. Dá pra sentir o tempo passando ao nosso redor.
  • “Ruminating” (Lilly Allen, West End Girl). Nenhuma experiência é única mesmo. Eu já ouvi, senti, pensei muitas das coisas que Lilly Allen descreve no seu escandaloso disco novo. “Ruminating”, que transfere todo um fluxo de pensamento para uma música, sem edições, é cru e cruel para a própria protagonista. É quando ela faz graça dos seus próprios sentimentos. Nunca é mais doloroso, nem mais honesto, do que nesse momento.

Série: Ruptura

Duas pessoas correm em um corredor branco enquanto luzes vermelhas se acendem atrás deles.

(2ª temporada, Apple TV). Foi um ano sensacional para a TV, daqueles que é difícil de escolher quais cinco séries eu vou escolher pra colocar na lista de fim de ano, e qual das cinco eu vou destacar. Eu bambeei durante o ano, porque teve muita coisa boa, mas ninguém tirou o reinado de Ruptura, que veio lá no início de 2025 e assombrou todo o meu ano.

Três anos depois da primeira temporada, eu tava curioso pra ver se Ruptura ia conseguir ser a série estranha mas apaixonante que foi em sua segunda temporada. Segundas temporadas são, eu acho, as mais difíceis de acertar: você precisa entender o que as pessoas gostaram na estréia, mas também precisa “explodir” a série para permitir que ela cresça para além da premissa original. E “explodir” é exatamente o que Ruptura faz em sua segunda temporada, e eu não tenho ideia de como a série vai seguir em frente quando voltar para seu (já confirmado) terceiro ano. O que importa aqui é que Ruptura conseguiu: pegando exatamente do gancho de onde paramos, a série se contorceu e se transformou em uma visão ainda mais madura e assombrosa da relação do ser humano com o trabalho — e encontrou, ali no meio, uma história de amor assombrosa de tão trágica. Nenhuma outra série esse ano foi tão bonita, tão audaciosa, e tão emocionante. Mas não foi por falta de tentativa.

E também:

  • Hal & Harper (minissérie, MUBI). Queria que não fosse uma minissérie, mas é uma pérola — Cooper Raiff cria uma das poucas históricas que conseguem enxergar como é difícil ser filho, de navegar pelas frustrações e expectativas de seus pais, mesmo quando crescemos.
  • Andor (2ª temporada, Disney+). Eu duvidava que iam conseguir, mas o segundo ano de Andor superou a já incrível primeira temporada, e é a melhor história do universo Star Wars, a ponto de ter estragado todo o resto um pouquinho. A gente se contentava com pouco. Andor entregou uma das visões mais didáticas sobre como o fascismo vence, e o custo que é revolucionar.
  • Pluribus (1ª temporada, Apple TV). Eu acho que todo mundo já viu Pluribus, mas se você não viu, eu não quero estragar a maior surpresa que você vai ter nesse ano. Eu não te duvido que ela seja a melhor série do ano na segunda temporada — é muito bem escrita, dirigida, montada e, principalmente, atuada. O tipo de série que a gente quer ir pro escritório conversar sobre com os colegas no dia seguinte. Nem parece feita no nosso tempo.
  • The Pitt (1ª temporada, HBO Max). Outra série que parece vinda de outro tempo: uma mistura de 24 Horas com Plantão Médico. Eu não sabia que eu queria algo assim, mas fiquei tão feliz que The Pitt entrega. Tem a crueza, a intensidade e a emoção do clássico drama médico; mas é nova, empolgante e audaciosa com sua estrutura narrativa. Louco pra ver a segunda temporada que estreia no início de 2026.