Ontem de noite eu assisti O Agente Secreto na cinemateca. É um grande filme, que me fez apreciar ainda mais o cinema do Kleber Mendonça Filho, um dos melhores diretores brasileiros hoje.

Uma coisa que me “incomodava” em Aquarius e Bacurau eram os becos sem saída que o filme parecia se meter de vez em quando — detalhes que não levavam a nada, nem agregavam à algum arco narrativo. Em O Agente Secreto eu percebi que eu tava procurando pelo em ovo. São esses becos sem saída, esses detalhes “sem motivo”, ou mal entendidos não resolvidos que enchem os filmes de Kleber Mendonça Filho com aquilo que eu acho que é a melhor coisa do seu cinema: a modulação entre exibir o que há de pior, de mais cruel, de mais podre e injusto no Brasil; ao mesmo tempo que mostra que esse é um país lindo, cheio de amor e cheio de gente de verdade. O Brasil balança o que há de pior e o que há de mais belo. É uma corda bamba, e O Agente Secreto é um excelente equilibrista.

Kleber Mendonça Filho dirige que é um colosso também. Não tem plano mal pensado, não tem cena com barriga. Ele move o filme com a força que Wagner Moura dá pra ele. É um trabalho impressionante mesmo. Meu favorito continua sendo Aquarius (eu acho que mais ainda agora que eu tive essa realização sobre o que antes eu considerava um problema do cinema de KMF), mas O Agente Secreto é um segundo lugar bem perto: traz a mesma raiva da corrupção moral que existe no coração de como o Brasil funciona, e a mesma força de vida dos brasileiros que lutam pela ideia desse país.